Esqueci de avisar:
Edição 27 do Suicidas aqui.
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“O nosso Vitangelo Moscarda (cuja sina começa pelo nome que não lhe coube, como a ninguém cabe, escolher) se apercebe de que toda a sua vida passada não quis ou não pôde opor às imagens de si, construídas pelos outros, uma auto-imagem consistente. Se, para os outros existiam tantos e tantos Moscardas, cem mil aspectos e perfis da sua persona aparente, para ele próprio parecia não haver um único eu que pudesse subsistir e resistir fora da opinião alheia. Para si próprio ele, afinal, era ninguém”.
Apresentação de Alfredo Bosi para Um, nenhum e cem mil, de Pirandello.
– Mas você é tipo o David Bowie da literatura.
Pelo pouco que pude ouvir da conversa, eles não são daqui; vieram de longe para conseguir ‘uma colocação’ e acabaram assim: pendurados em andaimes, reformando uma ‘casa velha’ – que, para mim, era uma ‘velha casa’. Parada do outro lado da rua, observava as paredes, antes bege, se tornado de um azul constrangedor. Mesmo aqui, onde o tempo costuma ir lento, as coisas e as pessoas se transformam – quanto de subjetividade carregava aquela nova cor! A fachada, pouco a pouco, se tornava o retrato do dono da casa: nariz, olhos, boca e, olhando mais de perto, poros e barba por fazer. Retrato icônico. Sinonímia perfeita. Pai.
Acordei. Na rua, as pessoas se aglomeravam por sobre as calçadas, espalhadas, mar de gente, sem identidade; do outro lado do corredor, a criança se esgoelava, enquanto a mãe estalava os sapatos escada abaixo; no meu quarto, o tapete molhado pela água que gotejava do teto – quando a casa resolve chorar a ausência de alguém… – e, portanto, o cheiro de mofo. Aquele cheiro de coisa velha, madeira apodrecida, poeira e húmus, aquele cheiro de gente velha internada em um asilo, aquele cheiro que não vinha do tapete; vinha de mim.
Esfregava, com violência, as costas, chuveiro aberto ao máximo, quente, o vapor se espalhando pelo banheiro, beijando os azulejos e voltando a ser água. Eterno retorno. No chão frio, me deixei invadir pelo passado, então: amarelo, amarelo e… branco pontuando a realidade – ou aquilo que eu atendia por. O cheiro de tinta, as roupas espalhadas pelo chão e toda a violência dos finais.
A beleza do passado é ser passado.
O cinza dos prédios se confunde com o céu, é julho – mês do meu aniversário. Assisto, enrolada nos lençóis, o tempo consumir os sonhos; alguns sobrevivem se deixando modificar, virando:… Outros tentam, em vão, se esconder no (sem) fundo de mim. Ficam encolhidos ali, onde quase não se respira; perdidos entre os hematomas e a carne morta. Mas, num dia qualquer, de surpresa e, portanto, sem chance de reação, os sonhos não despertam. Como podem morrer assim, numa tarde de domingo?
Os coleguinhas do Rockz fizeram uma música que é minha cara, escutem aqui.
Há 8 anos, eu dizia: - But I don’t believe in magic; life is automatic. Era mentira. Mas ele acreditou, bicho.
Veio correndo em minha direção, como se não visse as árvores, os carros, as pessoas e quase não tomou conhecimento do sinal fechado. Senti uma leve vertigem, quando me dei conta de que ele nunca me acharia “uma gracinha”. Sorri. Não adiantava me ocupar daquilo que não tinha jeito.