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Mímesis, “imitação” (imitatio, em latim), designa a ação ou faculdade de imitar; cópia, reprodução ou representação da natureza, o que constitui o fundamento de toda a arte. Platão e Aristóteles usaram este conceito com abordagens diferentes – em Platão, mímesis assume o significado de cópia e, em Aristóteles, de representação.
Representa-se a alógica e o desespero da vida em cortonos sutis: acreditamos que o vocábulo açúcar é doce; que reticências são feitas de falta de ar; e que tristeza rima com beleza.
O movimento Sturm und Drang (tempestade e ímpeto), situado no período de 1760 a 1780, postulava uma poesia espontânea – o valor estava no Empfindung, efeito da emoção. Sentimento acima da razão. A minha representação tem um pouco de Stürmer e um quê do decadentismo francês (que foi profundamente inspirado nas obras de Nietzsche e Schopenhauer), de 1880.
Tempestade, ímpeto e decadência só correspondem ao belo na forma de letra preta; só tem o encanto da novidade virginal em páginas de livros. A tristeza que resiste aos primeiros raios de sol da manhã, e aos apelos do verão, não é inocente ou encantadora. No entanto, a tristeza do papel não reflete necessariamente o que se sente na vida. É possível cunhar a representação - a cópia, não.
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Pandora, a primeira mulher, foi criada por Hefesto e Atena, com o auxílio de todos os deuses. Antes de enviar Pandora à Terra, Zeus entregou-lhe uma caixa, recomendando que ela jamais fosse aberta. Dentro dela, os deuses haviam colocado um arsenal de desgraças para o homem, como a discórdia, a guerra e todas as doenças do corpo e da mente mais um único dom: a esperança.
Calor. A sensação térmica era, segundo o jornal da tarde, de cinqüenta graus. Não conseguia dormir – o ventilador soprava um vento quente tão quente, que: levantei. Acendi um cigarro. Depois de todas os cinzeiros (e palavras) arremessados, era possível constatar que a pior punhalada vem do cabo. E não da faca.
Num impulso, Pandora abriu a caixa.
Tentava não permitir que os pensamentos se fechassem. Não quero fixar, determinar ou definir. Não existe conclusão possível acerca daquilo que é inconcluso. Somos obras abertas afinal. Infinitos. Presos neste maldito movimento pendular: bom e mau, alegria e tristeza, amor e ódio…
E, por mais rápido que a tenha fechado, quase tudo escapara. Exceto
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Correndo pelas ruas de pedra, subindo escadas, tropeçando no gato vira-lata e nas gargalhadas. Não, você não me pega. Minha mãe, da varanda da casa, me chama para tomar banho e lanchar. Só mais um pouquinho. Não, já está escuro. Entra. Depois de comer (ainda espalhando farelos de bolo de milho), sento na poltrona de cobertura de crochê. Na sala de jantar, minha avó comenta que dona Maria, nossa vizinha, havia sido desenganada pelos médicos. Foi a primeira vez que ouvi a palavra desenganada. Mas o que significa ser desenganada?
Dona Maria estava doente. E, no final da manhã de domingo, foi informada da gravidade do seu caso. Foi desenganada. Até aquele momento ela vivera enganada? Todas as manhãs, quando alimentava o gato e regava as plantas, dona Maria, ao suspirar de cansaço, não pensava na morte; não pensava que a realidade é fruto da tensão entre os opostos. Dia e noite, alegria e tristeza, presença e ausência, calor e frio. Vida e morte.
“O ser não é mais que o não-ser”. No caos que rege os acontecimentos do nosso cotidiano, o ser e o nada têm o mesmo valor – entender isto, alguns anos depois da perda de dona Maria, foi o meu primeiro desengano.
Somos tão frágeis quanto este bichinho que tenta nadar até a borda da piscina. Ele vai se afogar! Tento salvá-lo. Em vão. É, talvez na realidade deste bicho, na sua rotina de voar sobre as piscinas, ele também se julgue imortal.
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“Vou. Avanço, avanço e regresso. E cada quilómetro, um mês; e cada metro, um dia. Avanço para o que fomos. Encontrei nas pedras deste caminho, no luminescente desta viagem, um espaço por onde entrei e acelero, onde cada quilómetro em frente é um mês que recuo. E avanço neste caminho que fizemos mil vezes juntos e avançam as estações do ano: primavera inverno outono verão primavera inverno… E avançam os quilômetros neste sítio onde entro como se caísse. Vertiginosamente. Atiro-me neste poço, no fundo que não se vê deste poço. E há tanta luz. Há os instantes que vivemos mil vezes juntos e que agora nascem sem nós e nos ultrapassam. Há o sol que partilhamos mil vezes e que agora não te aquece, que agora não me aquece. Pai. Passo por tudo e tudo me deixa e passa por mim. Caio. Avanço. Regresso.”
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Em 1943, minha avó materna chegou ao Bairro de Santa Teresa, Rio de Janeiro, onde abriu uma mercearia. Nascida em Corvo, menor ilha do arquipélago português de Açores (superfície total de 17,13 km², com 6,5 km de comprimento por 4 km de largura e apenas 425 habitantes), dona Rosa foi a maior referência na minha infância, cresci ouvindo fado e estórias sobre o pequeno vilarejo.
Tenho a impressão de que a minha família nunca deixou aquela ilha – ou eu é que não.
A vila de Corvo é o local habitado mais isolado de Portugal. Durante o Inverno, as ligações marítimas, apesar de regulares, são fortemente condicionadas pelo estado do mar e pelo vento, já que o Porto da Casa não fornece abrigo que permita a operação com tempo adverso. No entanto, durante o Verão, chega a haver várias ligações por dia, usando barcos rápidos que fazem o trajeto entre o Corvo e Santa Cruz das Flores em cerca de 30 minutos.
Sinto o mar acariciando violentamente os meus pés – talvez ainda seja inverno. Estou presa aqui, esperando que, em breve, o verão inicie a faíscar.
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“O que fazemos aqui, nós, que vamos desaparecer?”, “Caminhamos”. Chão de terra, grama, pedras e o estalar da madeira; da floresta; do mundo. O céu termina na copa das árvores. E nós estamos no caminho. Mas aqui, no meio do nada, ninguém consegue ver o que nos rói o peito. Estamos (eu e a dor) protegidos da platéia por árvores e montanhas e estradas de terra; por sangue, músculos e ossos.
Para Schopenhauer, a dor é um escândalo, uma perturbação que deveria ser eliminada. A solução para a questão da dor, ainda segundo Schopenhauer, é o princípio da negação da vontade: o segredo para alcançar a felicidade absoluta é aprender a renunciar. Este princípio era um dos pontos de discordância entre Nietzsche e Schopenhauer. Para Nietzsche, a dor é parte essencial de toda existência.
Nietzsche, século XIX, filósofo que acreditava ter nascido póstumo, que acreditava que nós, seres iluminados do século XXI, seríamos capazes de compreender a sua obra. Nietzsche se mostrou, por fim, um otimista. A sua obra sobrevive num punhado de frases extirpadas de textos e enfiadas nesta enorme conversa de botequim que é a Internet (e a vida).“Deus está morto”, “Viva”. Poderíamos, nós, filósofos de botequim, apreciadores de cerveja e frases feitas, tentar entender o real significado daquilo que apenas repetimos?
Nossa sociedade, abarrotada de nietzschianos, continua se envergonhando das suas dores. Eu continuo me envergonhando das minhas dores. Sigo uma fraude. Pseudo-nietzschiana. Sigo estrangeirando nesta floresta – neste corpo – que me isola e protege.
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“Parei de andar de um lado para o outro, fui até a janela, afastei as cortinas e fiquei a vê-los correrem, os mesmos de sempre , a debaterem-se com aquelas enormes mangas de sempre, os livros de sempre e os colarinhos de sempre”. Faulkner
“A maior riqueza do homem é a sua incompletude. Nesse ponto sou abastado. Palavras que me aceitam como sou – eu não aceito. Não agüento ser apenas um sujeito que abre portas, que puxa válvulas, que olha o relógio, que compra pão às 6 horas da tarde, que vai lá fora, que aponta lápis, que vê a uva etc. etc. Perdoai. Mas eu preciso ser Outros. Eu penso renovar o homem usando borboletas”. Manoel de Barros
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A Internet é um simulacro da realidade; é uma sombra manipulada daquilo que somos. E, quando decidimos quais adjetivos serão projetados (e de que forma), acabamos criando a criatura que nos representa. E nos habita. The Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde.
No entanto, conhecer a criatura não é conhecer o criador. E quem poderia afinal conhecer o criador? Se nem ele próprio. Quando estudei física, era comum ouvir alguns colegas fazerem piadas com outras ciências “menos exatas”, como a psicologia. Claro: o objeto de estudo da psicologia, em constante mutação, não pode ser apreendido com a mesma facilidade que uma bola de aço. Não somos exatos. Do Homem, se obtém apenas recortes de realidade. Fotografias.
Ah, mas existe a questão da essência; aquilo que, se retirado, nos impediria de existir; aquilo que repousa sob as aparências. Mas é possível apontar a essência de um indivíduo a partir do que lemos e vemos aqui na virtualândia? Tanta pretensão, nem o nosso esforçado psicólogo, Freud, explica.
Beijos (meus e do Caê:
You don’t know me
Bet you’ll never get to know me
You don’t know me at all
Feel so lonely
The world is spinning round slowly
There’s nothing you can show me)
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O leite, o sentimento, a bruta, esfera, o fim, o jeito, o medo, o beijo, o vero, o ero, o raro
O falo, o dado
O olho tosco, o rosto, sopro, gosto ruim
O dado, o olho tosco, o rosto, solto ruim