I’m outta time
If I’m to fall
Would you be there to applaud?
Or would you hide behind them all?
‘Cause if I have to go,
In my heart you’ll grow
And that’s where you belong
If I’m to fall
Would you be there to applaud?
Or would you hide behind them all?
‘Cause if I have to go,
In my heart you’ll grow
And that’s where you belong
If you won’t save me, please don’t waste me time.
de faculdade que, sim, tive a coragem (ou caradepau?) de entregar.
Domingos Oliveira conhece o Doutor Gonzo
Subi por uma das escadas que ligavam o centro ao meu bairro. Atrás de mim, um casal de gringos, brancos demais, estranhos demais, alienígenas. Eles vêm procurar sonoridades diferentes, cores diferentes, cheiros diferentes, no entanto, tudo é igual, porque os olhos são os mesmos. Não há como fugir de nós mesmos; da prisão da matéria. Essa matéria que, dia após dia, se deteriora – estamos todos morrendo de tempo!
O celular me interrompe – não se pode pensar em filosofia em horário comercial! Alô. Sim, anoto. Péra. Uma amiga que trabalha com assessoria de imprensa conseguira o telefone da casa do Domingos Oliveira. Por um instante, a situação me pareceu normal: revirei a bolsa atrás de uma caneta e, no entanto, só papel de bala, batom, maço de cigarros e livros de faculdade. Merda. Fala, Fala. Vou tentar decorar. 2939? Valeu. Ainda não tinha me dado conta de que, em poucos minutos, estaria ouvindo aquela voz grave e bêbada do outro lado da linha. Assim, como se fôssemos colegas de Baixo Gávea.
Nunca mais escrever sem receber para. Nunca mais deixar que as pessoas confundam freelancer com alguém que escreve for free. Mas não, não! Não se tratava de uma incrível entrevista para um incrível site que, de tão incrível, não se importaria em me pagar para escrever. Precisava fazer uma matéria de jornalismo literário (seja lá o que isso signifique) para a faculdade. Pensei, então, em entrevistar alguém com quem eu tivesse alguma identificação e, movida pelo espírito kill your idols, escolhi o doutor Oliveira.
Branco, branco, branco e, sim, o cheiro de produtos de limpeza. O cineasta respirava pela boca e fazia uns barulhos estranhos, uns estalos, máquina velha; usava meias e sapatos pretos e, no bolso da camisa uma papelada esquisita. Domingos – como todo velho – deve guardar muitas coisas. Não, o preconceito não é meu: o pai de um amigo, que era geriatra, costumava dizer isso sobre os seus pacientes. Pilhas e pilhas de inutilidade amarelada escapavam pelos bolsos do senhor de 73 anos. Ah, Domingos. Penso em como a vida é curiosa: depois de tantas recusas, estou diante do meu entrevistado. Sorte? Destino? Sincronicidade? Preciso parar de procurar explicações lógicas para cada sensação, a vida não tem lógica! E, quando me perco em explicações, acabo por não viver completamente o presente.
Se esticasse o braço, poderia tocar o ombro dele.
De perto, não percebo nenhuma genialidade no senhor levemente encurvado para frente. Digo: não parece diferente das outras pessoas que aguardam o elevador. As pessoas que, como eu, freqüentam aquele prédio comercial repleto de psiquiatras e analistas na esquina da Rua Jardim Botânico com Lopes Quintas. Os olhos dele são de um castanho pálido e a boca… Sim, ele tem uma boca de verdade! Não é uma voz sem boca afinal. O elevador me interrompe – não se pode pensar em estética (ou seria antropologia?) em horário comercial! Vai subir, moça? Vou. Estas foram as únicas palavras que trocamos. Sem entrevista. Sem trabalho… e: sem nota?

Saí do cinema meio tonta, procurando me apoiar nas paredes, mas e a bombinha, cadê? [A asma é uma doença inflamatória crônica das vias aéreas. Em indivíduos suscetíveis essa inflamação causa episódios recorrentes de tosse, chiado, aperto no peito e dificuldade para respirar.] Esqueci em casa ou acabou. Droga! A minha rotina é uma espécie de ante-sala da vida, onde nada acontece: passado e presente; sonho e realidade quase imiscíveis. Mas essa calmaria, esse nada, é uma espécie de contagem regressiva para um colapso, eu sei. De repente: escuro. Acordo com um rosto desconhecido muito próximo ao meu, demoro a decodificar a imagem: dois olhos vivos e negros, diferentes dos meus que não têm brilho, mais parecem uns ocelos, opacos e mortos; o nariz dele é pequeno, bonito e proporcional; os lábios estão rachados, quase sangrando – a matéria viva querendo escapar e pintar de vermelho e respirar. Ei, moça, tudo bem com você? Tudo, tudo bem. Foi só uma tontura. Mas você ficou desmaiada um tempo. Quanto tempo? Não sei. Mas muito? Não, não muito. Isso acontece sempre? Algumas vezes. Você não deveria andar sozinha por aí, ainda mais nessa época do ano. Carnaval. É, no carnaval as pessoas piram, sei lá. Vou tentar levantar. Oquei, se apóia em mim. Tá. Você consegue ir para casa? Consigo, mas o ônibus demora à beça, ainda mais nessa época do ano. É, carnaval. É, carnaval. Odeio. Eu também.
As coisas começaram acontecer e tantas e tão rápido que nem senti, como no cinema: vinte e quatro quadros por segundo, no entanto, é impossível ter noção dos fragmentos. É fluido. Seqüenciado. Sem quebras. Era a primeira vez que entrava na casa dele, mas o meu corpo interpretava aquele momento como um retorno – era íntima de todos os detalhes pequenos e, portanto, indivisíveis: as infiltrações, o porta retrato sem foto e o barulho do ventilador de teto. Déjà vu. Quantas vezes eu já estive aqui? Percebia fragmentos de mim e dele em grossas camadas de poeira sobre os móveis e nos cantos do apartamento: o inevitável é leve. E nós, Bruno, somos inevitáveis, como a chuva e a morte. Odeio pensar desse jeito: eterno retorno, Nietzsche, à merda. Preciso parar de procurar explicações lógicas para cada sensação, a vida não tem lógica. E, quando me perco em explicações, acabo por não viver completamente o presente.
Então, os meus olhos se abriram mais uma vez e perceberam o que ainda não: livros, pequenos pedaços de caos e silêncio, pedaços dele, espalhados por todos os cantos do quarto, respirando baixinho e em várias línguas, pernas de capa azul, mãos de capa vermelha e pés de capa amarela. Espalhados. Milhares de palavras escapando das páginas e trepando nas paredes e formando frases e parágrafos únicos. Os meus parágrafos. O nosso livro. As paredes eram de um branco agressivo: enormes telas em branco pedindo por tintas. Pensei em comentar que eu poderia pintá-las, mas. No apartamento quatrocentos e dois tocava jazz o dia inteiro. Ele tinha discos! Muitos discos espalhados pela sala inteira. Quase não acreditei, quando vi que a vitrola funcionava. Sentei no chão e ri sozinha, feito criança. Feito os meninos da praça. Ele morava algumas ruas depois do cinema – duas ou três, não lembro, estava muito tonta para decorar o caminho. Era um prédio de seis andares. Antigo. E, por Deus, tinha banheira! Sempre quis ter uma banheira em casa. E poder ficar imersa na espuma, em silêncio, ouvindo apenas o barulho que vem de mim, de dentro, o coração bombeando sangue para o meu corpo inteiro, oxigenando, impedindo que eu apodreça – muitas vezes pedi baixinho para que ele parasse; para que a força que faz com que essa bomba funcione falhasse e então eu:.

Sinto o meu texto engessado; qualquer movimento, mesmo aquele quase imperceptível, pé ante pé, produz imensas rachaduras e as tais dores lancinantes. Dentro da casca branca, a palavra descansa mole. Parece morta, sem vontade, sem… utilidade?
Olhou pela janela e percebeu que o discurso da vida permanecia alheio a sua mudez: – a realidade não conhece os meus problemas. Não havia comida, água, ou luz; não havia possibilidade de se estabelecer qualquer diálogo: a palavra, outrora arma e caminho, havia se tornado um percalço a ser evitado.
obrigada pela graça alcançada.
“O que é vertigem? Medo de cair? Mas por que temos vertigem num mirante cercado por uma balaustrada sólida? Vertigem não é medo de cair, é outra coisa. É a voz do vazio debaixo de nós, que nos atrai e nos envolve, é o desejo da queda do qual logo nos defendemos aterrorizados.”
(…) Mas é assim mesmo: nascemos sós e morremos sós – esta é a única máxima relevante. Alguns animais têm esta consciência e, quando percebem que vão morrer, se isolam do grupo. Instintivo. Nós, humanos e racionais, acabamos por chamar pelos outros em momentos em que ninguém pode fazer nada, além de se lamentar diante da própria impotência. O corpo, por fim, isola.
So sad, my Jamie “Hotel” Hince. Dessa vez, vou tentar não fazer alouca, tá?