Testemunha das minhas mudanças

Decidi voltar para casa caminhando, precisava cansar as pernas e calar os sonhos – são os sonhos que fazem a gente odiar a própria vida. Os sonhos só servem para mostrar o quanto tudo poderia ser melhor. Com o silêncio dos sonhos, pude ouvir o barulho da chuva nos telhados; pude enxergar o movimento das pessoas, das árvores, dos carros; da vida. Nada pára. Nunca. E eu não posso parar também.
Os sentimentos e os sonhos são as principais vítimas do tempo. Nada permanece igual. Nada permanece. Nem eu. São mãos e bocas que não fazem mais sentido – nem nas palavras, nem nos retratos. Mesmo com tantas mudanças (no mundo e em nós), você é o único que continua aqui. Meu companheiro de cinema, pipoca e coca-cola.
Hoje, dia chuvoso, é o aniversário do meu companheiro de cinema – em especial, nos filmes d’Os Trapalhões. “Puxa, pai, naquela época o Didi era engraçado”. Já faz tanto tempo. Mudaram os filmes, branquearam os cabelos, mas ainda é a sua mão que procuro, quando sinto medo – dentro ou fora do cinema.
Outro dia, um amigo seu disse: “O Daniel é bom até para quem não é bom para ele”, é exatamente assim que você é, pai. Exatamente assim.
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