17 de Dezembro de 2007

Pequenas peças coloridas se movimentam no chão – algumas estão encaixadas, outras sozinhas, perdidas, mas todas dançam a mesma música: tique-taque. Fico observando e quase encontro algum paralelo entre as peças e a minha vida. Mas o telefone toca e perco as nuances do sonho. Sinto falta de sonhar com mais freqüência; nos meus sonhos, não tenho um corpo maciço: sou extensão de alguma coisa maior e com a qual nem sempre posso interagir.
Quando precisava tomar remédios para dormir, sonhava todos os dias e eram sonhos longos e extremamente sensoriais: flores de cores impossíveis, cheiro de algodão doce, paredes de veludo… Pequenos fragmentos das memórias da minha infância. Nos sonhos, é sempre a garotinha que me visita. Talvez queira me dizer alguma coisa. Talvez…
Vendo as fitas das festas de família, percebi que não sei quem fui. Olhava para a tela e me perguntava: “Quem é essa?”. Desculpa, mas não lembro de ter sido assim: olhos tristes, sorriso forçado e mãos que não sabem direito o seu lugar. Lembro do gosto do bolo do aniversário do meu pai, das cores dos presentes de Natal, da música chata nas festas do meu tio…, mas não lembro de mim.
Em outro vídeo, pareço completamente adaptada à tristeza. Quanto tempo perdi sem agir! Sim, eu era absolutamente passiva. Não sou mais. Pequenas peças coloridas se movimentam no chão – algumas estão encaixadas, outras sozinhas, perdidas, mas todas dançam a mesma música: tique-taque. Fico observando e quase encontro algum paralelo entre as peças e a minha vida. Mas o telefone toca: – Eu te amo.
Amor é o que se aprende no limite,
depois de se arquivar toda a ciência
herdada, ouvida. Amor começa tarde.
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