Bloco:
“Tire o seu sorriso do caminho,
Que eu quero passar com a minha dor”.
“Tire o seu sorriso do caminho,
Que eu quero passar com a minha dor”.
My heart is breaking, I cannot sleep
I love a man who’s afraid of me
He believes if he doesn’t stand guard with a knife
I’ll make him my slave for the rest of his life
Segunda-feira. Quase carnaval. O Rio me recebeu, depois de quase dois anos, com um sorriso cinza. Chovia. E, ainda assim, os meninos jogavam confete da janela do sobrado – Oi, Santa Teresa. Minha mãe me esperava na porta de casa e, antes mesmo de me dar um abraço, perguntou sobre as malas. Não havia malas. Sim, esses anos me subtraíram muitas coisas. E me deram muitas coisas também – mas essas coisas não podem ser transportadas em malas. É mesmo muito tolo acreditar que tudo pode ser lavado, passado, dobrado e espremido a ponto de caber numa mala.
Achei que nunca mais fosse voltar e, em alguns momentos, até desejei ser estrangeira para sempre. Sem residência nem interesses fixos – milhares de cursos e homens que, amanhecidos, não faziam sentido. Mas, de repente, me vi farta de acumular experiências; precisava de paz para recomeçar. Aliás, a possibilidade de recomeçar, coisa tão óbvia, só me ocorreu dois dias antes de decidir voltar para casa.
Foram os sonhos que me trouxeram de volta; que me arrancaram daquela prostração e me fizeram acreditar – neles e em mim. Foi reler aquele poema que escrevi aos quinze anos e ter a noção de que ainda havia muito a dizer (e a melhorar).
“Ela vai começar uma faculdade nova e, ainda por cima, quer escrever um romance. Louca”.
“Já conhecemos que aquilo que somos contribui muito mais para a felicidade do que aqui que temos ou representamos. Importa saber o que alguém é e, por conseguinte, o que tem em si mesmo, pois a sua individualidade o acompanha sempre e por toda parte, e tinge cada uma de suas vivências. Em todas as coisas e ocasiões, o indivíduo frui, em primeiro lugar, apenas a si mesmo. (…) Entretanto, se a individualidade é de má qualidade, então todos os deleites são como vinhos deliciosos numa boca impregnada de fel”.
Aforismos para a sabedoria de vida, Schopenhauer.
Que lindo foi o show da Vanessa da Mata – em especial, a cover de “História de uma gata”:
“Nós gatos, já nascemos pobres
Porém, já nascemos livres
Senhor, Senhora ou Senhorio
Felino, não reconhecerás”!
O meu coração é dos mato-grossenses.
Estava junto à parede, encolhida, esperando o momento certo de… De repente, um salto e: as garras entranhadas no passarinho. Da janela, vi a gata estraçalhar, com certa delicadeza, o bicho. Nos limites do quintal, quem era o monstro? E aqui fora, entre os sins e os nãos, quem é o monstro?
[Estamos todos encolhidos, dentro dos nossos medos, esperando o momento certo de?]
Completamente entregue: deixando o meu corpo afundar lentamente na massa de sonhos. Seus olhos, naquela tarde de verão, estavam cheios de despedida e, para além deles, as lágrimas escorriam encharcando a cidade inteira. [A chuva forte que atingiu Ibirité, na região metropolitana de Belo Horizonte (MG), durante todo o domingo, deixou várias famílias desabrigadas.] Sim, eu sabia que era o fim. Desde o dia em que te ouvi falando com ela ao telefone e, mesmo antes, quando o seu corpo se afastava do meu no meio da noite. Nos limites do nosso quarto, não havia surpresa. Nem tão de repente, um salto e:.
my baby, girl… friend, sweetheart, my sugar, girl… friend. Where are you, eyes of blue, dear? You are my everyday… girl. And everyday, everyday, I think of your smile. Oh, darling, You’re my darling, I can take you away, I can wonder with you, wonder everyday. And darling, I can see you… When I close my eyes. And in my dreams, You’re always there. Darling, you remember the days we would spend and happy the place, I could take you there? We’re like dreamers in nice colors; childlike dreamers underwater… We’re the dreamers in nice colors, and the colors are like summer.
Queria te dizer, amor, que, antes de você, eu era uma flautista que insistia em tocar Wagner, enquanto eles – a orquestra e o mundo – tocavam Mozart. Um desacordo total. Meus dedos sempre procurando orifícios e chaves e sons. Meus dedos sempre encontrando o vazio – meu e da flauta.
Mas você chegou e disse o que eu não queria ouvir. Disse o que eu precisava ouvir. E eu te odiei. Quebrei vasos e corações e tumultuei o coreto. Quase te impossibilitei de continuar tentando. Quase me impossibilitei de continuar vivendo.
No dia seguinte, pude reavaliar – a vida e música. E finalmente entendi: não é só de Wagner; é de mim e de você e de nós.