Arquivo de Janeiro de 2008

18 de Janeiro de 2008

Idas & Éduard Dujardin

Postado em Diarices, Estante por sophrosyne.hybris@gmail.com

“, entre o tempo e o espaço, na ilusão das coisas que se engendram e se criam, um entre os outros, um como os outros, distinto dos outros, semelhante aos outros, um igual e um a mais, do infinito das possíveis existências, surjo eu; e eis que o tempo e o espaço se precisam; é hoje; é o aqui; a hora que bate; e, em volta de mim, a vida; a hora, o lugar, um entardecer de abril, Paris, um entardecer claro de sol se pondo, os ruídos monótonos, as casas brancas, a sombra das árvores; um entardecer agradável, e uma alegria de ser alguém, de ir; as ruas e as pessoas, e lá muito longe o céu; Paris em volta canta e, na bruma das formas percebidas, suavemente emoldura o quadro”.

Os loureiros estão cortados, página 19.

 

James Joyce recomenda a Valery Larbaud a leitura de Les Lauriers sont Coupés, romance no qual reconhece ter se inspirado para compor o longo fluxo de consciência de Molly Bloom.

 

18 de Janeiro de 2008

The meaning of love:

Postado em Estante por sophrosyne.hybris@gmail.com

17 de Janeiro de 2008

Menos Bukowski e mais Ferreira Gullar*.

Postado em Estante por sophrosyne.hybris@gmail.com

A vanguarda e seus limites
(Gullar, Ferreira. Indagações de hoje. Rio de Janeiro, José Olympio, 1989, pp. 17-25)

Para falar das experiências de vanguarda, em qualquer de seus aspectos, é necessário, antes de mais nada, tentar definir o que se entende por vanguarda artística. Eu mesmo já procurei demonstrar, num livro publicado em 1969 (Vanguarda e subdesenvolvimento), que esse conceito não tem validez universal. Ou seja, o que é tido como vanguarda em Nova York ou Paris não é obrigatoriamente vanguarda no Rio de Janeiro ou em Recife. Que pretendia eu com essa afirmação? Pretendia deslocar a discussão desse problema do plano puramente estético-formal para situá-lo histórica e socialmente. Se é verdade que o caráter internacional da cultura contemporânea coloca num mesmo plano de atualidade as diferentes manifestações nacionais de cultura, não é menos certo que, em cada país, em cada região, a experiência de vida e os problemas concretos que agem sobre essa experiência exigem do escritor e do artista um modo específico de lidar com a matéria artística e formulá-la: o novo nasce da relação concreta com a vida e as formas estéticas, e não do mero transplante de idéias e formas nascidas noutro contexto e determinadas por outras necessidades.

(…)

É igualmente destituída de verdade a tese segundo a qual o processo estético obedece a uma evolução formal linear que determina, pelo aparecimento da obra nova, o envelhecimento ou a obsolescência instantânea das demais obras e modos de realização. Sob a ótica desse evolucionismo primário seria impossível explicar o surgimento de um Éluard ou de um Renê Char depois de Mallarmé, ou de um Faulkner depois de James Joyce. Qual a explicação possível para os vanguardistas, senão a de que Éluard e Char significam um retrocesso no curso da história literária? Do mesmo modo, têm que desconhecer o gênio de Faulkner e a importância de sua obra romanesca para continuar afirmando que Finnegan’s Wake é o ponto de chegada inevitável da evolução da linguagem ficcionista moderna. Mas tudo se torna mais compreensível se se abandona essa visão estreita e sectária para ver a obra de Joyce e a de Faulkner como expressões de personalidades geniais atuando em épocas e contextos culturais específicos. Só a convergência de fatores subjetivos e objetivos, individuais e sociais, imprevistamente combinados, pode explicar a ocorrência da obra literária. Naturalmente, o poder de irradiação de obras como a de Joyce e Faulkner modifica o curso histórico da literatura, ou melhor, determina rumos novos no curso da criação literária. Mas tão imprevisível quanto o surgimento de tais obras é a conseqüência de sua ação sobre os autores contemporâneos ou futuros. Nem sempre o desdobramento mais fecundo de uma experiência estilística é o seu seguimento imediato que aparentemente a continuaria. Muitas vezes o próprio radicalismo inerente à experiencia inovadora a conduz a um beco sem saída, ao mesmo tempo que aponta para veios outros, ricos e inexplorados, que o inovador radical deixou de lado mas revelou. Por isso mesmo é que não se pode valorizar a criação literária simplesmente em termos de audácia inovadora, que na maioria dos casos não é nem audácia nem inovação. Sobretudo hoje, quando a vanguarda, em certos meios, tornou-se uma espécie de aval para experimentalismos inconseqüentes, enquanto se nega atenção a busca difícil e demorada da forma que revela o aprofundamento da expressão.

(…)

As formas ideológicas e estéticas costumam transplantar-se para contextos culturais distintos daqueles que as geraram. Essa transferência se dá preponderantemente dos centros hegemônicos de cultura para a periferia, e aí muitas vezes sufocam ou retardam o desenvolvimento de formas autônomas de pensamento e criação estética. Essa autonomia não deve ser entendida como a aspiração a uma cultura nacional pura, surgida não se sabe de que fontes incontaminadas, mas como o produto de um ajustamento maior da cultura à sociedade em que nasce, ou seja, de um esforço crítico que detenha o processo de colonização cultural e ao mesmo tempo estabeleça a identidade do homem com o seu próprio universo. Esse universo não está limitado pelas fronteiras geográficas mas tampouco exclui os elementos concretos que constituem o tecido cultural específico de cada realidade regional e nacional. A alienação cultural consiste na perda de contato com esses elementos e na aceitação da novidade importada como se ela fosse a própria expressão da contemporaneidade. O conceito de vanguarda, como expressão de uma evolução cultural que desconhece a especificidade das culturas, induz a essa aceitação e, portanto, trabalha contra a busca de identidade cultural nos países periféricos.

A busca da identidade cultural não deve ser entendida como produto de sentimentos nacionalistas. Toda arte, toda cultura aspira à universalidade e, por isso mesmo, realiza a superação do que é meramente particular, regional, nacional ou internacional. Essas categorias, de fato, ocultam a universalidade presente em toda experiência humana e que é função da arte revelar. Mas essa superação não se dá em abstrato, pela exclusão teórica desses fatores ou pela eleição de um deles como expressão do universal, e sim pela alquimia mesma da elaboração estética, cuja matéria é a própria vida - contraditória e inovadora.

[Conferência no II Congresso da Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro, em outubro de 1982]

*Marje, roubei a sua frase.

16 de Janeiro de 2008

Destrancado

Postado em Verborrágica por sophrosyne.hybris@gmail.com

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“Se você não for falar com ela, meu amigo, não vai conseguir nada”, “Mas talvez eu não queira conseguir nada”.

E eu perdia tudo: brinquedos, lápis de cor, cadernos e até os livros da escola. Adquiri, então, a mania de etiquetar o que fosse meu. Muitas vezes ficava imaginando com quem e aonde estariam as coisas que perdi. E de que modo essas coisas estariam influenciando a vida das pessoas que as encontraram. Perder e achar: é disso que se trata a vida. Mas por quais fios invisíveis esses mecanismos são manipulados?

“Antes mesmo de te conhecer, te perdi. E te perdi, assim, de tão perto: na minha frente na fila do cinema, de costas para mim na exposição, lendo um livro no jardim do museu, esquecendo o mesmo livro em cima da mesa do café. Um período da sua vida está aprisionado naquelas páginas: a mancha no início do capítulo três, a expressão desagradavelmente alegre sublinhada, uma foto de criança – provavelmente usada como marcador – perdida dentro dele e uma etiqueta com o seu nome e e-mail na contracapa. Incrível como parte da nossa vida pode caber num simples objeto”.

Lembro da sua presença calada em todos os lugares: no filme do Wong Kar-Wai, na exposição da Nan Goldin, no jardim do Palácio do Catete e no café do Odeon. Finalmente o seu sorriso tem nome e o meu

livro

vai

ter

Fim.

16 de Janeiro de 2008

Silêncio:

Postado em Degraus por sophrosyne.hybris@gmail.com

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do Lat. silentiu

s. m.,

estado de quem se abstém de falar; taciturnidade; abstenção de publicar qualquer notícia; ausência de ruído; interrupção de correspondência; omissão de explicações; sossego; segredo…

A Revista Verbete (projeto que reúne interpretações de vários artistas para um verbete de dicionário) número quatro já está no ar; esta edição traz como tema o silêncio. Estou participando com quatro fotos que ilustram o texto da amiga, escritora e jornalista Marjorie Rodrigues. Então, já é: confiram a revista aqui.

14 de Janeiro de 2008

Primeira-dama da França:

Postado em Estante por sophrosyne.hybris@gmail.com

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Sans un peu d’extrême, est inacceptable.

13 de Janeiro de 2008

La Dernière Minute

Postado em Verborrágica por sophrosyne.hybris@gmail.com

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Pisei na linha da casa sete. Perdi. Estava sentada na entrada da mercearia esperando a minha vez, quando a chuva começou a cair. Chegar ao céu ficou mesmo para outro dia – para outra época. Em poucos minutos, a calçada virou um mar de cores: meu passado de giz de cor e Amarelinha escorrendo rua do Oriente abaixo.

Na entrada da mercearia, havia um saco de batatas; em cima dele: o gato. Dormindo, claro. Minha vó tomava um cálice de vinho do Porto no canto do balcão, quando tentei pegar uma barriguinha-de-freira. “Só depois do almoço”. Senti inveja da falta de limites do gato.

Dez anos depois, eu tinha dezesseis e levava uma vida de gato e xadrez. “Xeque-mate”. Rei e duas Torres contra Rei. Ele tinha o dobro da minha idade. Rei e Dama contra Rei. Minhas mãos estavam geladas. Rei e Torre contra Rei. Estávamos sozinhos na casa dele. Rei e dois Bispos contra Rei. O lençol tinha cheiro de lavanda. Rei, Bispo e Cavalo contra Rei. “Ouviu?”, “O quê?”, “Xeque-mate”.

A mercearia fechou. O jardim da casa da minha vó diminui – mas não o suficiente para caber na minha caixa de lembranças; não o suficiente para caber na minha realidade.

Ele me deu um livro de estratégias. Agora só perco – na vida e no xadrez – quando quero. E muitas vezes quero me perder nas pessoas que fui e nas coisas que perdi.

Acaricio o meu passado como quem acaricia alguém que está dormindo.

13 de Janeiro de 2008

Não tem ensaio

Postado em Diarices por sophrosyne.hybris@gmail.com

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Tenho vinte e seis anos. Não sou mais jovem há dois. Passei da metade da “meia-idade” há um. Agora é ladeira abaixo. Sei.

E te dou um dado? Um dos grandes baratos de envelhecer é adquirir o direito de dizer Não.

***

Eu tenho quase 30 anos.

Não tenho mais 20 e poucos – não tô mais em idade de acertar nada.

Vou errar todo dia até o fim.

Erro tão bem e com tal propriedade que não preciso de ninguém nem coisa nenhuma – erro sempre comigo mesmo.

Mas vou errar com os outros também – com todos.

E depois e depois, até todo mundo se encher e ir pra longe.

Que seja pobre, calado e sozinho.

 

12 de Janeiro de 2008

Jim

Postado em Estante por sophrosyne.hybris@gmail.com

Padua far beyond sea. The silent middle age, night, darkness of history sleep in the Piazza delle Erbe under the moon. The city sleeps. Under the arches in the dark streets near the river the whores’ eyes spy out for fornicators. Cinque servizi per cinque franchi. A dark wave of sense, again and again and again.

Mine eyes fail in darkness, mine eyes fail,

Mine eyes fail in darkness, love.

Again. No more. Darkness love, dark longing. No more. Darkness.

Acabo de notar que na página 27 do meu Giacomo Joyce tem a seguinte frase carimbada: “Sistema de bibliotecas da UERJ”. Só o posfácio do Paulo Leminski (“Nos trinta anos entre o Dublinenses e o Wake, Joyce escreveu o mesmo livro, o mesmo universo sempre elevado a graus cada vez mais agudos de criatividade verbal e inventiva arquitetônica. O mesmo Universo: a Irlanda, a Irlanda, a Irlanda, maldita ilha maravilhosa, duende, sempre rebelde e sempre submissa à Inglaterra, terra de bêbados e excêntricos, de hipócritas e humoristas, com toda a parda mediocridade pastosa de Dublin, sua capital, Irlanda papista, abafada debaixo de um catolicismo retrógrado, castrador, aldeão. O mesmo universo: vidas rotineiras, sem grandeza, sem horizontes, sem sentido.”) já valeria o roubo, mas trata-se de uma edição bilíngüe e ilustrada.

Obrigada, moço, pelo presente roubado.

11 de Janeiro de 2008

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Postado em Verborrágica por sophrosyne.hybris@gmail.com

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Bateu a porta.
Olhando para a cama desfeita, não sabia se ele tinha mesmo existido; se nós tínhamos mesmo vivido alguma coisa juntos. Só sabia que no mesmo instante, naquele bairro quente, ele conhecia o esquecimento - ele se adaptava ao esquecimento.

Quanto tempo já passou sobre a nossa história? E quanto mais vai ter que passar até que nos esqueçamos; até que a lembrança vire dúvida; até que a dúvida vire esquecimento?

A paixão vem e a compreendemos. Se vai e não a compreendemos mais. Não somos capazes de lidar com as lembranças e então nos esforçamos para esquecer. E o tempo, este trator, vai nos aniquilar. E eu voltarei a ser eu. Assim, impunemente.

Só sei que neste instante me entristeço por você. E penso que tudo o que acaba pode começar novamente - de forma diferente ou da mesma forma. Só sei que neste instante você

ainda

me

faz

ter

vontade

de

amar.