Arquivo de
Fevereiro de 2008
28 de Fevereiro de 2008

A plataforma está cheia. Estou imprensada entre a mulher que limpa o batom dos dentes e o velho que respira pela boca. Não sou feliz – a estrutura social não foi feita para que sejamos felizes. Ainda assim, o sorriso do rapaz de terno persiste: – Como alguém pode sorrir às seis da manhã?
Fecho o zíper do casaco e entro no vagão. De alguma forma, me sinto desconectada do todo; dessas pessoas que dormiram a noite toda e agora estão indo para o trabalho; dessas pessoas que estão tentando, de alguma forma, objetivar a felicidade. A felicidade, para elas, é maciça, concreta e… Possível.
A mulher de azul está curvada, tamanho o peso do bloco de felicidade que ela insiste em carregar. Certamente, o bloco de hoje é mais pesado que o de ontem: ela se curva à construção da felicidade. Também estou curvada, mas o peso que carrego é outro; é o peso da rotina de pegar o mesmo metrô milhões de vezes e nunca me lembrar direito do trajeto. Nunca estou inteira em nada que faço.
Mais uma vez, saio da estação sentindo que deixei alguma coisa lá; alguma coisa que não tenho como recuperar: o meu presente. Mais uma vez, as paisagens do presente são as variáveis do futuro.
25 de Fevereiro de 2008
Postado
em
Estante por
sophrosyne.hybris@gmail.com
“Ela não consegue definir muito bem o seu sentimento, não sente ódio, nem repugnância, então talvez se trate de desejo. Não sabe de nada. Consentiu em ir ao apartamento na noite anterior. Está onde precisa estar. […] Ele está trêmulo. Olha para ela como se esperasse ouvi-la dizer alguma coisa, mas a moça não fala. Então ele também fica imóvel, não a despe, diz que a ama como louco, depois fica calado. Ela não responde. Poderia dizer que o ama. Não diz nada. Subitamente, compreende, num momento, que ele não a conhece, que não a conhecerá jamais. Mesmo com tantos subterfúgios para compreendê-la, jamais conseguirá. A ela compete saber. Ela sabe. […] Ele diz que está sozinho, terrivelmente sozinho com esse amor. Ela responde que também está sozinha. Não diz com o quê. […] E chorando realiza o ato. A princípio, a dor. E depois a dor se transforma, é arrancada lentamente, transportada para o prazer, abraçada pelo prazer”.
O Amante, Marguerite Duras.
24 de Fevereiro de 2008
“A linguagem dispõe
de conceitos, de nomes
mas o gosto da fruta
só o sabes se a comes”
Ferreira Gullar
.
.
A linguagem é a linha divisória afinal.
23 de Fevereiro de 2008

Sempre atrasado, ou ausente, ou ainda, ao contrário, adiantado, mas certo, diário e inevitável, tal qual a chuva. O convidado indesejado que invade a minha casa – me invade – e coloca os pés sobre a mesa de centro e traz consigo o sono, a impossibilidade de continuar, ou apenas um desânimo, o nada. E, então, o telefonema da minha mãe, as peripécias da cachorrinha, o emprego novo, os livros, o movimento da rua, tudo fica achatado, indistinto. A realidade inodora, incolor e sem cheiro: água, onde deveria haver sangue.
Do outro lado da sala, ele sorri, como se nunca tivesse sequer ouvido o som do desespero; o som da bofetada que é o desespero. Folheia uma revista, comenta as notícias da semana, toma café e decide se esticar no sofá e dormir. Dorme um sono tranqüilo e leve; diferente do meu que é pesado e entrecortado por pesadelo em que estou sempre caindo e caindo. O desespero é formalização do medo de não conseguir alguma coisa; de não sair do lugar. O medo da porta fechada, de escrever sem acreditar nas palavras, de amar sem acreditar no amor, de viver
sem
acreditar
na vida.
22 de Fevereiro de 2008
Postado
em
Estante por
sophrosyne.hybris@gmail.com
“Na vida, quando queremos agarrar ou possuir algo, devemos deixar muitas coisas à direita e à esquerda e renunciar a diversas outras. E, se não soubermos lidar com tal fato e, ao contrário, tentarmos pegar tudo o que nos atrai pelo caminho, como crianças na feira, é porque temos aspirações insensatas de transformar numa superfície a linha de nossa vida. Corremos em ziguezague, vagando aqui e ali, e não conseguimos nada”.
Schopenhauer
22 de Fevereiro de 2008

A menina da sala doze só se ocupa de sonhar e qualquer outra coisa, mesmo o fumar, o escrever e o conversar a aborrecem profundamente.
22 de Fevereiro de 2008

Naquela noite, o Baixo Gávea era Paris – ou era a vodka que não queria ser russa; queria ser parisiense. Olhei para o copo e pensei: “Falta muita delicadeza para”. Mas não era o Baixo Gávea; era Montmartre – e o segundo ponto e vírgula da coisa. E então, Cézanne, Monet, Van Gogh, Renoir, Lautrec e eu, em uma mesinha à beira da rua. Ele chegou, com as suas mãos de escritor, e me ofereceu um livro de poesias. Recusei: “Não falo francês”. Mas o livro acabou ficando sobre a mesa e, de repente, começou a flertar com o português:
O Bordel do Poeta
Tava com aquela cara de porta quando abriu o espelho e entrou na sala.
Parágrafo 2046, letra 402, fundos.
De cara, eram seis exclamações magrelas,
pulando putas e pretas num canto,
final do corredor.
Já sobre o palco, parco, porco e alto,
sinuosa e só de calcinha,
rebolava uma interrogação
e bem torta,
da esquerda à direita
e ao meio,
quase. Quase tocando o chão. Onde,
só,
dormia uma moedinha esquecida
por uma reticência incompleta.
Suas duas irmãs surrupolhavam redondas
Três Marias boladas pelo basculante,
Sujeitas oblíquas,
em pontos de inveja
barrigas brilhando.
Abriu seu reflexo e entrou no banheiro.
Olhou para a porta e as viu,
em cima dos olhos:
Duas vírgulas dispensáveis,
em forma de parêntese.
Fechou o contexto e as raspou,
tornou-as colchetes.
Torneira ligada,
água quase molhada,
barulho de verbo,
um redemoínho formou.
Os travessõezinhos de pêlos
à pia escorreram,
e correram,
chegaram,
arfaram,
morreram,
entraram no ponto
e ponto!
Saíram pelo cano.
.
.
Texto meu e do Rique (que resolveu me deaprezar com z).
19 de Fevereiro de 2008
Postado
em
Estante por
sophrosyne.hybris@gmail.com

Também virei grafite pelas mãos da Endie.
15 de Fevereiro de 2008
A senhora admite que a loucura une toda sua obra. “Loucura” sintetiza sensibilidade, percepção, forma de expressão diferente do convencional?
É tudo isso sim, mas também é um desequilíbrio total, um desarranjo. É horrível ser louco. Meu pai foi esquizofrênico paranóico e ele sofreu muito. As pessoas fantasiam muito com a loucura, ficam imaginando só um lado poético, genial de ser louco. Mas não é só isso. Padecer de loucura é terrivelmente doloroso. E não sei até onde a loucura garante a boa qualidade de sensibilidade ou percepção de alguém. O mundo teve loucos geniais, Nietszche, Nijinsky, tantos outros. Mas teve os horríveis. Hitler também tinha uma sensibilidade diferente do convencional, mas era um carniceiro monstruoso. E também deve ter muito louco chato, maluco mesmo, como acontece com todo o mundo.
Trecho da entrevista de Hilda Hilst ao Scream & Yell.
.
.
Estou cansada, cansada.
É impressionante constatar que, de uns tempos pra cá, a loucura virou sinônimo de talento – em especial, nas artes. É preciso adquirir algum transtorno para, então, alcançar a salvação no ato de criar. Acho esse pensamento ignorante e extremamente desrespeitoso. A loucura, como diz a obra de Michel Foucault, é a escuridão completa e a “não obra”. Enfim, elevar os problemas pessoais (independente da sua origem) ao patamar de arte é um desrespeito – oi, te dou um analista? Com isso, não estou dizendo que execro, por exemplo, os escritores que usam a própria vida como base para os seus livros – e nem poderia, já que um dos meus escritores preferidos é o Henry Miller. O talento está justamente em saber lapidar a própria vida, de forma que ela alcance o status de obra. E, amigo, esse talento definitivamente não tem a ver com doença alguma.
15 de Fevereiro de 2008

Estou debruçada na janela e ouço ele abrir e em seguida bater a porta e depois de algum tempo não ouço mais nada além das crianças chegando da escola e do rádio da vizinha então deito na cama e me encolho agora as crianças estão brincando de pique-pega nas escadas e no rádio as notícias do dia e em mim além do silêncio um certo alívio afinal não há mais nada
a sua matéria não é mais possível
para
mim
Tenho a impressão de ouvir os meus sonhos se esgueirando pelos cantos da casa e acordando as lembranças e o amor e então levanto e fecho a porta do quarto na tentativa de deixar o mundo barulhento do outro lado da grossa camada de madeira mas em pouco tempo os malditos sonhos passaram por entre as frestas e alcançaram o meu peito
a gente pode esquecer dos sonhos
mas os sonhos
não esquecem
da gente