Araki
Björk por Araki
Quinhentos e quarenta páginas de fotografias: uma espécie de resumo do trabalho de Nobuyoshi Araki publicado pela Taschen. Dentre eles, as séries Sentimental Journey (fotografias da esposa durante a lua-de-mel) e Winter Journey (fotografias dos últimos dias da esposa – à primeira vista, a imagem da mulher ornada de flores dentro de um caixão parece bizarra, mas através dela Araki nos faz refletir sobre a impermanência da carne), além das já conhecidas séries de mulheres nuas e Tóquio – uma espécie de diário dos seus desejos – e retratos como os da cantora Björk.
“Photography is love and death – that’ll be my epitaph.” Araki.
Conheci o trabalho dos fotógrafos Nobuyoshi Araki e Nan Goldin em 2006, mas só em 2008, quando fiz um curso complementar sobre Fotografia & Artes Plásticas, pude me aprofundar em suas obras. Nan Goldin começou fotografando as pessoas à sua volta com o objetivo de materializar lembranças.
‘‘Eu comecei a tirar fotos devido ao suicídio da minha irmã. Eu a perdi e tornei-me obsessiva com a idéia de nunca mais perder a lembrança de alguém.’’ Nan Goldin.
O objetivo de Nan não é diferente de uma mãe que resolve fotografar todos os aniversários dos filhos, afinal todos nós – profissionais ou não – já usamos a máquina fotográfica como caixa de lembranças. E isso me levou a perguntar: por que raios o trabalho dela é tão especial? A diferença está no em torno e nos olhos de quem aperta o botão: os amigos dela, em geral, travestis e viciados, faziam parte de um mundo que nunca havia sido retratado de forma tão verdadeira – e não poderia ser diferente, já que ela fazia parte dele. Não há poses, nem cenários meticulosamente arquitetado e, justamente por isso, as fotos me lembram a idéia do “monólogo interior” na literatura, ou seja: um discurso sem interlocutor através do qual um personagem exprime os seus pensamentos mais próximos do inconsciente, anteriores a qualquer organização lógica, em seu estado original e, portanto, as frases são diretas e reduzidas à sintaxe mínima – o que faz um paralelo direto com as fotos de Nan que, em geral, são feitas com câmeras comuns (daquelas que podem ser encontradas em qualquer esquina) e sem nenhuma preocupação com a técnica.
Nan e Araki foram importantíssimos na formação do que seria a estética da fotografia nos anos 90 e a afinidade entre os seus trabalhos gerou, inclusive, um livro feito a quatro mãos: Tokyo Love. Mas, folheando o livro do Araki, pude perceber que existe uma grande diferença entre o trabalho dos dois: ele se preocupa em fetichizar os corpos fotografados; enquanto ela parece querer aprisionar apenas o ato, de forma natural. O sexo de Nan beira a inocência.
Os comentários para este post estão fechados.

