15 de Fevereiro de 2008

Respostas:

Postado em Estante., Rabugices. por sophrosyne.hybris@gmail.com

A senhora admite que a loucura une toda sua obra. “Loucura” sintetiza sensibilidade, percepção, forma de expressão diferente do convencional?

É tudo isso sim, mas também é um desequilíbrio total, um desarranjo. É horrível ser louco. Meu pai foi esquizofrênico paranóico e ele sofreu muito. As pessoas fantasiam muito com a loucura, ficam imaginando só um lado poético, genial de ser louco. Mas não é só isso. Padecer de loucura é terrivelmente doloroso. E não sei até onde a loucura garante a boa qualidade de sensibilidade ou percepção de alguém. O mundo teve loucos geniais, Nietszche, Nijinsky, tantos outros. Mas teve os horríveis. Hitler também tinha uma sensibilidade diferente do convencional, mas era um carniceiro monstruoso. E também deve ter muito louco chato, maluco mesmo, como acontece com todo o mundo.

Trecho da entrevista de Hilda Hilst ao Scream & Yell.

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Estou cansada, cansada.

É impressionante constatar que, de uns tempos pra cá, a loucura virou sinônimo de talento – em especial, nas artes. É preciso adquirir algum transtorno para, então, alcançar a salvação no ato de criar. Acho esse pensamento ignorante e extremamente desrespeitoso. A loucura, como diz a obra de Michel Foucault, é a escuridão completa e a “não obra”. Enfim, elevar os problemas pessoais (independente da sua origem) ao patamar de arte é um desrespeito – oi, te dou um analista? Com isso, não estou dizendo que execro, por exemplo, os escritores que usam a própria vida como base para os seus livros – e nem poderia, já que um dos meus escritores preferidos é o Henry Miller. O talento está justamente em saber lapidar a própria vida, de forma que ela alcance o status de obra. E, amigo, esse talento definitivamente não tem a ver com doença alguma.

 

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