Dois:
Naquela noite, o Baixo Gávea era Paris – ou era a vodka que não queria ser russa; queria ser parisiense. Olhei para o copo e pensei: “Falta muita delicadeza para”. Mas não era o Baixo Gávea; era Montmartre – e o segundo ponto e vírgula da coisa. E então, Cézanne, Monet, Van Gogh, Renoir, Lautrec e eu, em uma mesinha à beira da rua. Ele chegou, com as suas mãos de escritor, e me ofereceu um livro de poesias. Recusei: “Não falo francês”. Mas o livro acabou ficando sobre a mesa e, de repente, começou a flertar com o português:
O Bordel do Poeta
Tava com aquela cara de porta quando abriu o espelho e entrou na sala.
Parágrafo 2046, letra 402, fundos.
De cara, eram seis exclamações magrelas,
pulando putas e pretas num canto,
final do corredor.
Já sobre o palco, parco, porco e alto,
sinuosa e só de calcinha,
rebolava uma interrogação
e bem torta,
da esquerda à direita
e ao meio,
quase. Quase tocando o chão. Onde,
só,
dormia uma moedinha esquecida
por uma reticência incompleta.
Suas duas irmãs surrupolhavam redondas
Três Marias boladas pelo basculante,
Sujeitas oblíquas,
em pontos de inveja
barrigas brilhando.
Abriu seu reflexo e entrou no banheiro.
Olhou para a porta e as viu,
em cima dos olhos:
Duas vírgulas dispensáveis,
em forma de parêntese.
Fechou o contexto e as raspou,
tornou-as colchetes.
Torneira ligada,
água quase molhada,
barulho de verbo,
um redemoínho formou.
Os travessõezinhos de pêlos
à pia escorreram,
e correram,
chegaram,
arfaram,
morreram,
entraram no ponto
e ponto!
Saíram pelo cano.
.
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Texto meu e do Rique (que resolveu me deaprezar com z).
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