Persépolis:
Pré-Estréias Sexta (15/2) e Sábado (16/2) às 21h no Estação Botafogo.
Pré-Estréias Sexta (15/2) e Sábado (16/2) às 21h no Estação Botafogo.

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I don’t have to sell my soul
he’s already in me
“um riso sem um
rosto (um olhar
sem um eu)
cuida
do (não to
que) ou
desaparec
erá sem ru
ído (na doce
terra) &
ninguém
(inclusive nós
mesmos)
relem
brará
(por uma fra
ção de
um mo
mento) onde
o que como
quando
por que qual
quem
(ou qualquer coisa)”
e. e. cummings
Espalhei as fotos pela cama. As fotos: pequenos pedaços de um passado que preciso me esforçar para reconhecer como meu. Sim, eu já fui sozinha. E não posso dizer que sinto saudade – até porque saudade é um termo que não existe fora da nossa realidade. Nossa. Minha e sua. Só nas nossas separações de dois dias (ou dois milímetros), aprendi o significado de saudade que, nas páginas do dicionário, é “uma mistura de lembrança e desejo”.
Todas as quartas-feiras você é pijama jogado no canto da cama, sem vida, e eu tomo café sozinha. A casa responde com goteiras por todos os lados e rachaduras nas paredes – estamos desmoronando. Os minutos vão se repetindo: eu e o livro, eu e a música, eu e o almoço, eu e a janela, eu e o sono, eu e o jantar…
Só os seus telefonemas me chamam à realidade. Você, do outro lado da linha, está feliz com as suas aulas, as suas crianças e a sua falta de tempo para pensar. E eu, deste lado da linha, me culpo por não me sentir feliz por você e falo sobre a cachorra que, embora ainda não tenha chegado, já faz parte da casa; a planta que – fica tranqüilo – eu não esqueci de regar; a vizinha que, veja só, estava ouvindo Stone Roses – our love, girl, is going through changes… I dont know if I’m alive, dead, dying or just a little jaded. Someone throw me a line – You know I need it, I need it bad.
Perdi o meu coração em outra cidade.
Björk por Araki
Quinhentos e quarenta páginas de fotografias: uma espécie de resumo do trabalho de Nobuyoshi Araki publicado pela Taschen. Dentre eles, as séries Sentimental Journey (fotografias da esposa durante a lua-de-mel) e Winter Journey (fotografias dos últimos dias da esposa – à primeira vista, a imagem da mulher ornada de flores dentro de um caixão parece bizarra, mas através dela Araki nos faz refletir sobre a impermanência da carne), além das já conhecidas séries de mulheres nuas e Tóquio – uma espécie de diário dos seus desejos – e retratos como os da cantora Björk.
“Photography is love and death – that’ll be my epitaph.” Araki.
Conheci o trabalho dos fotógrafos Nobuyoshi Araki e Nan Goldin em 2006, mas só em 2008, quando fiz um curso complementar sobre Fotografia & Artes Plásticas, pude me aprofundar em suas obras. Nan Goldin começou fotografando as pessoas à sua volta com o objetivo de materializar lembranças.
‘‘Eu comecei a tirar fotos devido ao suicídio da minha irmã. Eu a perdi e tornei-me obsessiva com a idéia de nunca mais perder a lembrança de alguém.’’ Nan Goldin.
O objetivo de Nan não é diferente de uma mãe que resolve fotografar todos os aniversários dos filhos, afinal todos nós – profissionais ou não – já usamos a máquina fotográfica como caixa de lembranças. E isso me levou a perguntar: por que raios o trabalho dela é tão especial? A diferença está no em torno e nos olhos de quem aperta o botão: os amigos dela, em geral, travestis e viciados, faziam parte de um mundo que nunca havia sido retratado de forma tão verdadeira – e não poderia ser diferente, já que ela fazia parte dele. Não há poses, nem cenários meticulosamente arquitetado e, justamente por isso, as fotos me lembram a idéia do “monólogo interior” na literatura, ou seja: um discurso sem interlocutor através do qual um personagem exprime os seus pensamentos mais próximos do inconsciente, anteriores a qualquer organização lógica, em seu estado original e, portanto, as frases são diretas e reduzidas à sintaxe mínima – o que faz um paralelo direto com as fotos de Nan que, em geral, são feitas com câmeras comuns (daquelas que podem ser encontradas em qualquer esquina) e sem nenhuma preocupação com a técnica.
Nan e Araki foram importantíssimos na formação do que seria a estética da fotografia nos anos 90 e a afinidade entre os seus trabalhos gerou, inclusive, um livro feito a quatro mãos: Tokyo Love. Mas, folheando o livro do Araki, pude perceber que existe uma grande diferença entre o trabalho dos dois: ele se preocupa em fetichizar os corpos fotografados; enquanto ela parece querer aprisionar apenas o ato, de forma natural. O sexo de Nan beira a inocência.
Começa na quarta-feira de cinzas (6), no CCBB, a mostra O Universo de Jacques Demy, com cinco filmes e um documentário sobre ele realizado por sua mulher Agnès Varda.
Finalmente um bom motivo para sair de casa.