Escritoras Suicidas:
A Edição 24 já está no ar.
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“Sino ante el agua especular que imita
El otro azul en su profundo cielo”
Borges

A escada – espiral sem fim – é o primeiro desafio. Ela sente medo, ameaça voltar para casa, mas: um puxão e: o primeiro degrau. O estalar da madeira anuncia as etapas vencidas, até que: o tapete verde, o térreo e: a porta de vidro. Uma voz grave e desconhecida diz que ela não pode passar por ali. Outro puxão e: mais uma escada – dessa vez, pequena. Ela está confiante. Desce e caminha até o portão de ferro. Mas, quando pisa na calçada e se vê engolida pelo ruído do mundo, tenta novamente voltar para casa, a cama macia e o silêncio.
De repente: a vida real – que é o que existe para além do apartamento 402 – a traga. E as ruas… Meudeus, as ruas apresentam uma diversidade tão grande de cheiros, que: quase desmaia, treme e: pééééé… Buzina, é esse o nome do tal troço? No meio da confusão, percebe um cheiro conhecido, o mesmo que invade as manhãs de Domingo: pão fresquinho e café-com-leite. Senta-se no chão e olha para a dona com os seus grandes olhos castanhos de súplica, a dona tira uma lasca do pão e dá para a pequena cachorrinha.
das paralelas que nunca se encontram.
“– E que somos nós? – exclamou Ega. – Que temos nós sido desde o colégio, desde o exame de latim? Românticos: isto é, indivíduos inferiores que se governam na vida pelo sentimento, e não pela razão…
Mas Carlos queria realmente saber se, no fundo, eram mais felizes esses que se dirigiam só pela razão, não se desviando nunca dela, torturando-se para se manter na sua linha inflexível, secos, hirtos, lógicos, sem emoção até ao fim…
Creio que não – disse o Ega. – Por fora, à vista, são desconsoladores. E por dentro, para eles mesmos, são talvez desconsolados. O que prova que neste lindo mundo ou tem de se ser insensato ou sem sabor…
– Resumo: não vale a pena viver…
– Depende inteiramente do estômago! – atalhou Ega. Riram ambos.
Depois Carlos, outra vez sério, deu a sua teoria da vida, a teoria definitiva que ele deduzira da experiência e que agora o governava. Era o fatalismo muçulmano. Nada desejar e nada recear… Não se abandonar a uma esperança – nem a umdesapontamento. Tudo aceitar, o que vem e o que foge, com a tranquilidade com que se acolhem as naturais mudanças de dias agrestes e de dias suaves. E, nesta placidez, deixar esse pedaço de matéria organizada que se chama o Eu ir-se deteriorando e decompondo até reentrar e se perder no infinito Universo… Sobretudo não ter apetites. E, mais que tudo, não ter contrariedades”.
Os Maias, Eça de Queirós.
***
E o livro inteiro aqui.
Da janela do táxi: borrão, onde deveria haver cidade. O trânsito está parado. Chove. O azul violento – dos seus olhos – inundando ruas e bairros inteiros; destelhando casas na rua do Oriente.
[De um gole só. Assim, minha filha, tampa o nariz e bebe o suco de beterraba com cenoura, as verdades e a vida.]
Sinal fechado, guarda-chuvas coloridos nas mãos das crianças que não são minhas, a saudade das mentiras que cabiam no seu silêncio, as notícias das seis da tarde e as explicações que não explicam a previsão do tempo: seus olhos
de
tragédia
anunciada.
Tantos pensamentos e: vazio; tantas palavras e: silêncio; tanto carinho e: ponto. O sangue se misturava a água num processo lento – o vermelho insistia em não se deixar invadir pelo azul, mas o tempo. Era um daqueles dias irritantemente bonitos e, bem, você sabe, nesses dias tenho até vontade de parecer com eles: cheios de pensamentos, palavras e sorrisos – cheios de si.
À beira da piscina – e do romantismo – tudo parecia tão profundo.
– Por que sempre tão rasos?