Amanhã:

Can’t you see what you’ve done to my heart, and soul?

Can’t you see what you’ve done to my heart, and soul?
Sou uma das ganhadoras do concurso Exercícios Urbanos do Portal Litera!
Deveria ter engolido a verdade que, num movimento contrário ao da cerveja, me saiu pela boca. Como diria Raduan Nassar: “a maior aventura humana é dizer o que se pensa”.
Acompanhem a série no Flickr da Endie.
Outro dia – é preciso dizer que numa mesa de bar – comentei que não acreditava na existência do Escritor Rubem Fonseca, pois nunca tinha visto nenhuma foto dele. Bom, a brincadeira rendeu e um amigo, provando que Fonseca realmente existe, me enviou esta foto.
“Naquela casa, naquele quarto, eu trazia guardadas as coisas que me acompanhavam desde os cinco anos de idade. Eu não escrevia em outro lugar que não fosse o meu quarto porque fora dele eu não sabia escrever. A vida foi me dando porradas, me dando, até que aprendi a escrever em qualquer canto. Sem precisar de casa ou de quarto. Qualquer boteco é lugar para escrever quando se carrega a gana de transmitir. Gana é um fato sério que dá convicção”.
Estou lendo (e adorando) João Antônio e aprendendo a “tornar comum”.

A rotina começa a pingar nos meus olhos e, pouco a pouco, os lugares e as pessoas vão desbotando, até que: invisíveis. No elevador, cumprimento o meu vizinho, a minha mãe, o meu chefe, tanto faz. São sempre uns rostos incompletos, rascunhos de pessoas, e as suas falas ensaiadas: jevaistrèsbienmercijevousenprie. Às vezes, tenho a sensação de que estou desbotando também e, por isso, evito me olhar no espelho. Não quero ter de lidar com o nada que sou… Eu?
A cidade, tão cinza, parece uma extensão de mim. Chove. E, no entanto, as crianças jogam bola na pracinha – estão completamente enlameadas, mas, para elas, isso é apenas um detalhe sem importância. Gostaria de me importar menos com os detalhes; de ser como menino diante do goleiro. Gol. No ponto de ônibus, uma mulher tentava se proteger com uma sacola de compras na cabeça, ao lado dela, o vendedor de balas; o mesmo vendedor de balas de quando eu era criança. Aqui, só se somam as rugas, enquanto as pessoas permanecem no mesmo lugar: o vendedor de balas, a dona da mercearia, os velhos que, em dias ensolarados, jogam xadrez na praça. E eu. Nos limites do bairro, não importa o sexo, a idade e o nome: ninguém tem identidade. Mas: o meu ônibus.
No Centro, o cheiro de mijo me lembra que é carnaval. Alguns foliões ainda desfilam, bêbados, pelas ruas, impedindo os carros de passarem – as pessoas, nessa época do ano, perdem a noção dos limites; as máscaras e as fantasias estimulam a liberação do outro que mora dentro deles. A máscara é a poção e então: Mr Hide. Se um desses putos sem mãe vier jogar espuma de barbear no meu cabelo, acabo com ele. Estando bêbado, não vai ser tão difícil assim. Sempre carregava um punhal na bolsa – uma das poucas heranças da minha vó. Sozinha. Sempre sozinha. Precisava me defender. De certa forma, me sinto culpada por pensar assim; por carregar todo esse ódio aqui dentro. Gostaria de me importar menos com os detalhes; de ser como as cabrochas de carnaval.
Não tinha fila: ingresso, troco, a moeda cai no chão, pego de volta, piso numa poça d’água, merda, molhei a meia do pé direito, peço para o pipoqueiro acender o meu cigarro, fumo, enquanto espero dar a hora, fumo e olho o casal de namorados se beijando embaixo do guarda-chuva, ela parece incomodada com as pessoas que, de longe, acompanham o movimento dos dois, ele parece querer descer a mão até a bunda dela, puto, a hora, já vai começar, entro, as cortinas vermelhas se abrem, ao mesmo tempo em que o relógio, daqueles antigos, desperta, o meu coração dispara, é sempre assim, o cinema me emociona, ai, mas esse cheiro, falta de ar, respiro fundo, respiro fundo, sinto nojo do cara que está sentado ao meu lado, ele fede a suor, a um suor que entranhou na pele, a um suor que nasceu com ele, aquele cheiro é ele.
Trecho do meu primeiro romance.
Toda noite, duzentos milhões de pessoas sonham em português.
Do documentário Língua - Vidas em Português.