“Já somos o esquecimento que seremos”
Uma mão no volante e a outra para fora do carro. Fumando. Não te falei, mas: o filtro agora é vermelho. A chuva cai em pingos grossos e, no rádio, Chet Baker é o amigo mais próximo. Jogo o cigarro na rua e fecho a janela.
Estou parada num trânsito paulista enquanto a vida segue, bêbada, do lado de fora do vidro: a mulher de guarda-chuva xadrez atravessa a rua em direção à Lagoa, o entregador da farmácia tenta, com a sua bicicleta, passar entre os carros e quase leva o meu retrovisor, o vendedor de biscoito Globo se cobre com um pedaço de plástico e… Sinal verde.
Do lado de dentro do vidro: a minha angústia. Não te falei, mas: angústia é uma espécie de pré-medo – para a angústia se tornar medo, é preciso que ela deixe de se apoiar apenas em suposições.
Na minha boca, a angústia vira medo: pronuncio, em três idiomas, aquela pergunta. E, em silêncio, aguardo a resposta, que nunca.
Quero calar completamente, como as ruas, as datas e a chuva.
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