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Espirrei. Claro, tanto tempo sem abrir aquele livro, sódeussabe quantos fungos decidiram fazer daquelas páginas casa e comida, livro-útero. Fiquei olhando para fora do carro: céu negro, chuva caindo e um silêncio que, de repente, passou a nos incomodar – perdemos a intimidade afinal. Antes que ele pedisse para eu ler o tal poema, liguei o som. Mais uma vez ele insistiu para que tomássemos o comprimido, como se aquilo pudesse trazer de volta a nossa versão escandalosa e romântica, que saía por aí prometendo sangue no Centro do Rio. Fiquei com vontade de rir. Não, não por efeito do remédio, mas por lembrar de todas as vezes que eu disse “para sempre”. Que besteira.
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Pisando forte, batendo com as chaves nas grades, passando os dedos nos muros de chapisco, como se o ruído e a dor pudessem espantar a obviedade dos meus erros; de mim.
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Ela, em lugar de pedir, como era o costume dos homens, deitava no meu colo com metade da cabeça pendendo para o nada – uma posição aparentemente desconfortável. Virava-se um pouco e: dormia. O seu sono era tão pesado quanto o fato de ser única entre nós.
Eu, sem sono, sem inspiração, escrevendo apenas em linguagem referencial, ignorava a vida, que lá fora, era também felicidade. A vida emoldurada pelas grandes janelas brancas: o sol, as árvores, as pessoas apressadas para o trabalho e tudo que se mostrava possível sem ele.
Ela, deitada no meu colo, roncando baixinho, fazia a vida parecer simples e doce como a sua própria existência. O sono se estendia até o fim da tarde, quando a campainha tocava, e a cachorrinha corria serelepe para recebê-lo.
Segundo ela, todo mundo já havia percebido… Então, recomendou que eu fumasse mais… Treze, trinta, trezentos e trinta e três vezes ao dia… Trezentos e trinta três? Se fumasse tanto, o câncer viria antes da melhora do meu humor… Então, por favor, a receita azul… Dobre a dosagem… Sem escândalo… Em algumas semanas, tudo resolvido! Não preciso cultivar a tragédia da minha família – o ódio e a sua problemática… As mãos no teclado: oduio, ódip, pfio… As mão: temem-tremem… E o motivo é sempre o mesmo: incompetência – minha e dos outros.
Pelo princípio de tripartição da alma de Aristóteles, o Homem é dotado de três almas, que presidem e regulam operações constantes e diferenciadas. A primeira alma, presente no Homem, nas plantas e nos animais, é a “vegetativa”, que regula funções como a nutrição e a reprodução. A segunda, presente no Homem e nos animais, é a alma “sensível”, que é responsável, dentre outras coisas, pelas sensações. O apetite nasce em conseqüência da sensação: “Todos os animais têm pelo menos um sentido, ou seja, o tato. Mas quem tem a sensação sente prazer e dor, o agradável e o doloroso. E quem os experimenta tem também desejo: com efeito, o desejo é o apetite do agradável.” Para Aristóteles uma das maiores virtudes éticas é o triunfo da razão – que está ligada à terceira alma, a “Intelectiva”, presente apenas no Homem, e responsável pela assimilação das formas inteligíveis – sobre os impulsos irracionais, como o desejo.
Se a felicidade está no cultivo pleno das faculdades intelectivas e eu não consigo desenvolver parte delas, é fato que vou “mancar” pelo resto da vida. É sempre o desejo de assimilar mais e mais formas. É sempre o afastamento do meio em direção aos extremos.
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“Sem fazer véspera. Sou doido? Não. Na nossa casa, a palavra doido não se falava, nunca mais se falou, os anos todos, não se condenava ninguém de doido. Ninguém é doido. Ou, então, todos”.
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Mas que porra de… Ah: estão demolindo o clube, que foi à falência em 2006 – se eu mesma dei a nota no jornal outro dia. Que cabeça (ou falta de)! Mas descobri que gosto de mim assim: meio tonta, sob pressão, entropia alta, sempre preocupada com alguma coisa, sempre em fechamento, andando pelas ruas de Botafogo e me lembrando dos carnavais no clube, do samba desajeitado, com um jazz no ouvido, que… putz, foi interrompido. Preciso trocar a bateria do iPod.
O Rio não é o mesmo quando os meus ouvidos não estão surdos para o trânsito e os papos medíocres.