Noite
Acordei. Na rua, as pessoas se aglomeravam por sobre as calçadas. Espalhadas. Mar de gente sem identidade. Do outro lado do corredor, a criança se esgoelava, enquanto a mãe estalava os sapatos escada abaixo; no meu quarto, o tapete molhado pela água que gotejava do teto – quando a casa resolve chorar a ausência de alguém… – e, portanto, o cheiro de mofo. Aquele cheiro de coisa velha, madeira apodrecida, poeira e húmus, aquele cheiro de gente velha internada em um asilo, aquele cheiro que não vinha do tapete; vinha de mim.
Esfregava, com violência, as costas, chuveiro aberto ao máximo, quente, o vapor se espalhando pelo banheiro, beijando os azulejos e voltando a ser água. Eterno retorno. No chão frio, me deixei invadir pelo passado, então: amarelo, amarelo e… branco pontuando a realidade – ou aquilo que eu atendia por. O cheiro de tinta, as roupas espalhadas pelo chão e toda a violência dos finais.
A beleza do passado é ser passado.
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