Gaveta

Um buraco imenso duas pedras cinco moleques atravessando a rua nenhum maço de cigarros quatro postes acesos uma infinidade de estrelas uma chamada em espera duas quadras cinco lances de escadas dois tacos soltos uma hora dois pratos dois copos quatro garfos nenhum beijo dois sapatos um vestido uma calça uma camiseta dois discos um comprimido nenhum sono.
Não estávamos sozinhos. As paredes do alojamento eram finas e permitiam que toda a sorte de barulho (e, portanto, de vida) invadisse o pequeno cômodo. Era compreensível que ele precisasse beber tanto para suportar aquilo. Em geral, as pessoas bebem para fugir da rotina; ele bebia para suportá-la.
No entanto, naquela noite, ele não parecia bêbado. Estranhei. De repente, começou a falar cadavezmaisrápido e embolar as plalavras: – Estamos sendo arrastados e vamos cair, vê? No entanto, sentia o meu corpo leve, como se pudesse voar pela janela e ganhar a rua; nela, os meus pés sentiriam o chão frio e, de novo, as pedras. Como algumas pessoas conseguiam passar por aquele caminho acidentado com tanta facilidade? Para ele, cada pedra usada para calçar aquelas ruas, aquelas mesmas ruas, era enorme.
A mistura de todas as cores era o negro afinal. E era apenas o negro que ele era capaz de enxergar – naquela situação e mesmo antes.
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