2011
“que toda relação de amor se transforme infinitamente”, dizia Domingos de Oliveira num restaurante do Baixo Gávea. Ao lado dele, a ex-namorada, a amiga com quem teve um caso rápido, a esposa e um de seus ex-namorados. Tudo parecia muito natural: uísque e aqueles mesmos papos sobre “o livro do Dostoiévski que ela está relendo”. O mundo, vivido deste jeito, se torna menos cruel.
As barreiras que separam início e fim, vida e morte, juventude e velhice, cedo e tarde são construídas de acordo com a sociedade, cultura, histórico pessoal e tantas outras variáveis, que me fazem lembrar de equações não-lineares, previsão do tempo e Teoria do Caos.
Acredito que começo e fim sejam imísciveis. E, portanto, todo fim pressupõe um recomeço, “para que a vida se torne menos cruel”. Nunca deixei de amar as pessoas que, de alguma forma, se tornaram parte de mim – acaricio o meu passado como quem acaricia alguém que está dormindo.
Mas, se o carinho se torna solavanco, o passado desperta. E, ao abrir os olhos, rejeita a nova realidade. O espaço novo parece cada vez menor, cada vez menor… Num jantar como o da ‘família’ de Domingos, as pessoas seriam esmagadas por paredes, cadeiras e, é claro, por outras pessoas sedentas por espaço.
Talvez este comportamento territorialista seja coisa de jovens, que insistem em “transformar a vida numa coisa cruel”. Talvez envelhecer seja o nosso único remédio.
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