Arquivo de Fevereiro de 2009
Sem título 2
, como um aleijado que ainda sente o membro amputado coçar. Sem as pernas. Levanta da cama, ainda com sono, sem se dar conta de que não pode mais andar; de que a vida não vai ser mais a mesma.
Diante do novo, sente necessidade de repetir as mesmas frases de antes, certo de que elas ganharão novos sentidos – novas pernas. No ar: bengalas, bolas de sabão, folhas secas, aviões (?):
“Quero alguém que saiba do que estou falando”.
Ele não a amava (e, neste momento, não seria capaz de acrescentar ‘ainda’ a frase). Talvez nunca. Mas, de todo jeito, no silêncio entre uma frase e outra, algum sentimento crescia. Um sentimento bem diferente da repulsa, que.
Ela estava muito cansada – é mesmo uma força incrível que se precisa fazer para não secar; para que o hoje não se torne o prólogo do ontem. Tinha horror do silêncio. No silêncio, ela podia avaliar, até com certa frieza, que, mesmo depois daquela merda toda, não havia se tornado uma aleijada.
Lembrei-me de ti, quando beijara o teu rosto de homem, devagar, devagar beijara, e quando chegara o momento de beijar teus olhos – lembrei-me de que então eu havia sentido o sal na minha boca,
N’O Globo:
Antes de definir a minha editoria, Ciência, passei por várias outras – inclusive, como fotógrafa. Fato: certos vegetais são mais expressivos e carismáticos do que determinados modelos. E, bem, é a única editoria em que comer o modelo não traz maiores conseqüências. Enfim, uma das fotos desta época foi publicada n’O Globo de ontem.
Amor,
pelo meu amor recente.
[o engraçado(?) é que, em mim, não]
Antipática

Calor, né? Sim, essa época do ano é foda. E, cara, ainda tem o carnaval. Pois é: tudo junto. Calor, batuque e a obrigação de se sentir feliz. Meu andar. Tenha um bom dia. Cê também.
O meu vizinho é um cara legal. Sangue bom. A gente se encontra há anos e as conversas são sempre amenas – nenhum aborrecimento ou novidade. Nada. As conversas são nada. O meu silêncio pode ser mais expressivo (e sincero) do que qualquer sorriso que ele tenha a me oferecer.
Gostaria de saber o que vai além da sua casca. Talvez exista apenas um estômago forte, que lhe permita ser um cara tão legal com todo mundo, o tempo todo. Legalcomtodomundootempotodo. Sangue bom.
Bastaria uma pequena fissura para revelar o que há ali, mas: quem tem paciência ou curiosidade? Melhor deixá-lo sob o título de cara legal e correr para a faculdade. Estou atrasada.
No carro, penso: diferente dele, eu nunca me esforcei para parecer legal. Dessa forma, acabei filtrando naturalmente um monte de gente, que. Não sei se já deixei isso claro aqui, mas: eu não gosto de gente – independente, do aposto que fulano ou fulana possa ter: “Este é o meu amigo fulano, que estuda cinema e se amarra em anos 90”. Nem tenta.
Mas tenta:
Oi.
Oi fulanoestudantedecinemaqueseamarraemmúsicadosanos90, eu sou a fulana sem aposto; a fulana que não vai se esforçar para demonstrar alguma interessância; a fulana que não tem energia para isso, pois passou o resto do dia segurando a impulsividade e o choro. A fulana que não sabe mais os seus limites, depois de permitir que alguém transformasse uma pequena fissura num imenso buraco.
Certo mesmo está o meu vizinho que, por ser sagaz, não deixa ninguém entrar.
Sobre covardia (ou uma breve retrospectiva do fim de semana):
Me and my head high
And my tears dry
Get on without my guy
You went back to what you knew
So far removed from all that we went through
And I tread a troubled track
My odds are stacked
I’ll go back to black

