Antipática

Calor, né? Sim, essa época do ano é foda. E, cara, ainda tem o carnaval. Pois é: tudo junto. Calor, batuque e a obrigação de se sentir feliz. Meu andar. Tenha um bom dia. Cê também.
O meu vizinho é um cara legal. Sangue bom. A gente se encontra há anos e as conversas são sempre amenas – nenhum aborrecimento ou novidade. Nada. As conversas são nada. O meu silêncio pode ser mais expressivo (e sincero) do que qualquer sorriso que ele tenha a me oferecer.
Gostaria de saber o que vai além da sua casca. Talvez exista apenas um estômago forte, que lhe permita ser um cara tão legal com todo mundo, o tempo todo. Legalcomtodomundootempotodo. Sangue bom.
Bastaria uma pequena fissura para revelar o que há ali, mas: quem tem paciência ou curiosidade? Melhor deixá-lo sob o título de cara legal e correr para a faculdade. Estou atrasada.
No carro, penso: diferente dele, eu nunca me esforcei para parecer legal. Dessa forma, acabei filtrando naturalmente um monte de gente, que. Não sei se já deixei isso claro aqui, mas: eu não gosto de gente – independente, do aposto que fulano ou fulana possa ter: “Este é o meu amigo fulano, que estuda cinema e se amarra em anos 90”. Nem tenta.
Mas tenta:
Oi.
Oi fulanoestudantedecinemaqueseamarraemmúsicadosanos90, eu sou a fulana sem aposto; a fulana que não vai se esforçar para demonstrar alguma interessância; a fulana que não tem energia para isso, pois passou o resto do dia segurando a impulsividade e o choro. A fulana que não sabe mais os seus limites, depois de permitir que alguém transformasse uma pequena fissura num imenso buraco.
Certo mesmo está o meu vizinho que, por ser sagaz, não deixa ninguém entrar.
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