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Março de 2009
11 de Março de 2009
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Refletido na dor nas pernas, no desinteresse pelas aulas e no humor instável, o cansaço. Não me dei conta de que, nesta brincadeirinha da vida, não tive férias. Desde o final de dezembro, é só cassino, cassino, cassino – e eu não ando com muita sorte. Mas, mesmo quando me permito ganhar, é o cansaço que sobressai.
[E essas cores, de onde vieram? De onde veio este drama, este desamor e este novo amor? De onde veio esta minha necessidade de separar e classificar sentimentos, relações e, até, pessoas?]
Ontem, quando me dei conta de que o perder movimenta o pêndulo da vida muito mais que o ganhar, quis simplesmente estar imóvel. Não quero perder nem ganhar mais nada – nem ninguém. Quero o tédio contido na imobilidade das coisas, quero ser estátua de pedra.
10 de Março de 2009
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I’ve stood in a thousand street scenes
Just around the corner from you
On the edge of a dream that you have
Has anybody ever told you it’s not comin’ true?
10 de Março de 2009
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A criança se diverte com uma escova de dentes colorida, enquanto a mãe conta o dinheiro para pagar duas caixas de remédio. Após examinar novamente os trocados, a mãe se dá conta de que não pode levar a escova e, constrangida, retira o objeto da mão da filha.
Resolvo comprar a escova. Ando alguns quarteirões, mas não as encontro. Certamente, pegaram um ônibus.
Sento para almoçar, ainda com a escova na mão. Cerdas macias, cabo vermelho e um palhaço que mexe os olhos na ponta. Automaticamente, me lembro de que não posso mais planejar ter filhos. Dói. Dói tanto, que:
Preciso de novos planos.
9 de Março de 2009
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***
Risíveis pessoas: as que pensam me conhecer apenas porque lêem o meu blog e as que acham que escrevo diretamente para elas.
9 de Março de 2009
Deve ser por isso que os franceses chamam o período após o orgasmo de “pequena morte”, petite mort. É a sensação de contato com a essência, que é interpretado como vazio ou lucidez extrema. Não estamos preparados para isso. Claro, estamos acostumados com a existência e, portanto, não reconhecemos a essência.
Um pouco antes, ele segurou a minha mão e eu, encolhida, esperava o peso desastroso de um “eu te amo”. Mas não: “quero te dar prazer”. Achei bonito. E, antes disso, sincero. Nunca ninguém havia me dito nada parecido. Então, ficamos ali, trancados naquele momento, longe do martelar do tempo.
“Meu bem, faz quantos anos?”.
8 de Março de 2009
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Dizem que a rosa simboliza a “feminilidade”, a delicadeza. É a mesma metáfora que usam para coibir nossa sexualidade — da supervalorização da virgindidade é que saiu o verbo “deflorar” (como se o homem, ao romper o hímen de uma mulher, arrancasse a flor do solo, tomando-a para si e condenando-a – afinal, depois de arrancada da terra, a flor está fadada à morte). É da metáfora da flor, portanto, que vem a idéia de que mulheres sexualmente ativas são “putas”, inferiores, menos respeitáveis. (Leia o texto na íntegra no blog da Marje)
8 de Março de 2009
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Não é que eu tenha me rendido ao destino irremediável de ser quem eu sou – transformando, assim, a carne em fardo. Definitivamente, não é uma questão de aceitação; estou absolutamente confortável em mim. Não tenho ânsia de atingir o belo socialmente aceito.
Sei exatamente a dimensão física do meu corpo: ando pelos dias sem esbarrar, desnecessariamente, em ninguém. Não há o toque pelo toque. Não há desperdício daquilo que temos de mais raro, o tempo. Talvez, por isso, você nunca vá ouvir a minha voz. Talvez, por isso, você tenha de se conformar em projetar as suas inseguranças em mim.
Não me movo de mim. Por ninguém. Portanto, o riso e o tapa são igualmente genuínos; e só os conhece quem eu permito entrar. E você, não. E você, nunca. A sua rajada de palavras só é açoite para você.
Tenho sentido uma felicidade responsável e segura. No entanto, não sinto mais medo de nada. Até a morte, é sempre bem-vinda. A morte é a única forma de se alcançar o entendimento absoluto. Caminhamos – veja só, eu e você –, tranqüilamente, na direção do inevitável. Porém, sem admitir qualquer esbarrão. Cada uma na sua calçada.
Beijinho na testa,
D
6 de Março de 2009
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Permitir que este sentimento cresça desta forma é uma prova irrefutável de que me falta princípio de realidade.
4 de Março de 2009
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Telefone. Outra vez. Do outro lado da linha, ele tenta me perguntar, com toda delicadeza do mundo, se estou bem. Conta que ‘também’ não está numa fase boa e que, portanto, seria ótimo que pudéssemos tomar um chope e falar sobre a “fragilidade das relações afetivas na era da máquina”. Fico calada. Não sei como dizer que, veja bem, estou ótima! Parece que existe uma expectativa de que, após o fim de um relacionamento, as pessoas vivam uma espécie de luto.
Por e-mail, ele insiste em fazer uma autópsia no cadáver imaginário. Perco a paciência: amigo, não existe cadáver! Nada morreu. Para morrer é preciso, antes, estar vivo. Entende? Não que eu acredite nessas baboseiras lusitanas de morrer-de-amor, ao contrário. Mas, quando o tal do amor existe de verdade, ele não acaba; se transforma. E, no meu caso, não adianta solicitar a exumação. Não há cadáver. Com efeito, eu não estou de luto.
Damaged people are dangerous, because they know they can survive.