26 de Maio de 2009

Dois.

Postado em Verborrágica por sophrosyne.hybris@gmail.com

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Saí do cinema meio tonta, procurando me apoiar nas paredes, mas e a bombinha, cadê? [A asma é uma doença inflamatória crônica das vias aéreas. Em indivíduos suscetíveis essa inflamação causa episódios recorrentes de tosse, chiado, aperto no peito e dificuldade para respirar.] Esqueci em casa ou acabou. Droga! A minha rotina é uma espécie de ante-sala da vida, onde nada acontece: passado e presente; sonho e realidade quase imiscíveis. Mas essa calmaria, esse nada, é uma espécie de contagem regressiva para um colapso, eu sei. De repente: escuro. Acordo com um rosto desconhecido muito próximo ao meu, demoro a decodificar a imagem: dois olhos vivos e negros, diferentes dos meus que não têm brilho, mais parecem uns ocelos, opacos e mortos; o nariz dele é pequeno, bonito e proporcional; os lábios estão rachados, quase sangrando – a matéria viva querendo escapar e pintar de vermelho e respirar. Ei, moça, tudo bem com você? Tudo, tudo bem. Foi só uma tontura. Mas você ficou desmaiada um tempo. Quanto tempo? Não sei. Mas muito? Não, não muito. Isso acontece sempre? Algumas vezes. Você não deveria andar sozinha por aí, ainda mais nessa época do ano. Carnaval. É, no carnaval as pessoas piram, sei lá. Vou tentar levantar. Oquei, se apóia em mim. Tá. Você consegue ir para casa? Consigo, mas o ônibus demora à beça, ainda mais nessa época do ano. É, carnaval. É, carnaval. Odeio. Eu também.

As coisas começaram acontecer e tantas e tão rápido que nem senti, como no cinema: vinte e quatro quadros por segundo, no entanto, é impossível ter noção dos fragmentos. É fluido. Seqüenciado. Sem quebras. Era a primeira vez que entrava na casa dele, mas o meu corpo interpretava aquele momento como um retorno – era íntima de todos os detalhes pequenos e, portanto, indivisíveis: as infiltrações, o porta retrato sem foto e o barulho do ventilador de teto. Déjà vu. Quantas vezes eu já estive aqui? Percebia fragmentos de mim e dele em grossas camadas de poeira sobre os móveis e nos cantos do apartamento: o inevitável é leve. E nós, Bruno, somos inevitáveis, como a chuva e a morte. Odeio pensar desse jeito: eterno retorno, Nietzsche, à merda. Preciso parar de procurar explicações lógicas para cada sensação, a vida não tem lógica. E, quando me perco em explicações, acabo por não viver completamente o presente. 

Então, os meus olhos se abriram mais uma vez e perceberam o que ainda não: livros, pequenos pedaços de caos e silêncio, pedaços dele, espalhados por todos os cantos do quarto, respirando baixinho e em várias línguas, pernas de capa azul, mãos de capa vermelha e pés de capa amarela. Espalhados. Milhares de palavras escapando das páginas e trepando nas paredes e formando frases e parágrafos únicos. Os meus parágrafos. O nosso livro. As paredes eram de um branco agressivo: enormes telas em branco pedindo por tintas. Pensei em comentar que eu poderia pintá-las, mas. No apartamento quatrocentos e dois tocava jazz o dia inteiro. Ele tinha discos! Muitos discos espalhados pela sala inteira. Quase não acreditei, quando vi que a vitrola funcionava. Sentei no chão e ri sozinha, feito criança. Feito os meninos da praça. Ele morava algumas ruas depois do cinema – duas ou três, não lembro, estava muito tonta para decorar o caminho. Era um prédio de seis andares. Antigo. E, por Deus, tinha banheira! Sempre quis ter uma banheira em casa. E poder ficar imersa na espuma, em silêncio, ouvindo apenas o barulho que vem de mim, de dentro, o coração bombeando sangue para o meu corpo inteiro, oxigenando, impedindo que eu apodreça – muitas vezes pedi baixinho para que ele parasse; para que a força que faz com que essa bomba funcione falhasse e então eu:.

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