Coisas

Frio e levemente salgado, rodopiando, despenteando as árvores, indo e vindo e levando consigo as folhas amareladas. Foi este vento de mar que despenteou os meus cabelos? Estou, de fato, sentada na praia, assistindo aos moleques que batem uma bolinha, enquanto dou a primeira mordida no Dragão Chinês? O agora: sabor de chocolate e cheiro de maresia e todas as pessoas que não me percebem. O agora mais uma fina camada de agora: o trânsito e todo aquele barulho e os carros espremidos e as crianças de uniforme da escola atravessando fora da faixa de segurança. Não consigo desfazer a trama dos agoras: todos os momentos se sobrepõem. Não sei se o corte do lado esquerdo da boca está curado, com casca ou aberto. Não sei se neste momento estou te beijando. Não sei se já te beijei. Talvez seja tudo vento: passado, presente, corpo, identidade. Tudo se misturando na esquina da Ataulfo de Paiva.
Mais uma vez, faço o monólogo dos lugares; das sensações contidas naquilo que me cerca. Mas como eu disse no parágrafo anterior (e como disse aquele velho argentino): Todos estão em toda a parte, e tudo é tudo. Cada coisa é todas as coisas. O Sol é todas as estrelas, e cada estrela é todas as estrelas e o Sol. E, se tudo é tudo, falar das coisas, sentir através delas, é falar de mim. Talvez, meu bem, este seja o meu monólogo interior, o único possível.
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