Universalidade subjetiva
Embora planeje fazer mestrado, reconheço que não me adéquo à vida acadêmica. É quase irritante estudar Estética e Teoria Literária. Diante de um texto ou quadro, é sempre o velho argumento de autoridade, que garante ao sujeito do discurso a capacidade de apontar o significado universal da obra e até entender o sentimento que moveu o artista no momento da criação. Alguns críticos mais exaltados garantem que ninguém poderia sequer olhar o Jardim das Delícias, sem prévio conhecimento de semiótica.
Por mais que, durante o meu superficial estudo de filosofia, tenha travado discussões intermináveis com Kant, me agrada o conceito de que o belo tenha origem na relação entre sujeito e objeto: são inúmeros Jardins das Delícias, concebidos por diferentes formas de sentir e pensar. Não é preciso enxergar, disfarçada nas pedras do paraíso, a caricatura de Bosch para se emocionar.
Lembro que outro dia, trocando de canal, vi uma repórter levar um senhor de sessenta e poucos anos a uma exposição no MAM. Ele nunca havia entrado num museu antes. Ainda sem entender a utilidade daqueles borrões, o senhor que passara a vida pintando paredes, sentiu “um nó na garganta” diante daquela “misturada de tintas”.
O belo não é objetivo afinal.
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