31 de Dezembro de 2009

Disse um velho orixá pra oxalá
Pra acreditar
Pra não temer, temer, temer
Desses tempos verdadeiros
Tempos maus
(Janaína, Otto)
O céu derramava o seu chumbo por sobre o castigado mar do Flamengo. Na manhã do dia 31 de dezembro, debaixo de chuva, apenas alguns garis recolhiam folhas secas das areias da praia, enquanto meia dúzia de desavisados enfrentavam os raios para oferecer flores à Iemanjá. Em 2008, não viemos e veja só, veja só. Não acredito que Iemanjá tenha sentido falta das nossas rosas, mãe. É claro que sentiu, é claro, veja só, veja só. Do nosso lado, um casal contava as sete ondas: ela dava pulos desajeitados, segurando a saia; ele, ao perceber a nossa presença, ficou imóvel – criança que quebrou o vaso de porcelana da mãe. Do outro lado é o quê? Niterói? Não sei, mãe, creio que sim. E lá adiante? Acho que é a Urca. Não tenho certeza.
Embora estivéssemos ridiculamente vestidas, com aquelas capas de chuva de camelô, as nossas roupas ficaram ensopadas e, ao nos movimentarmos, fazíamos uns barulhos esquisitos, impossíveis de serem reproduzidos por qualquer onomatopéia. O celular da minha mãe tocou. Aqui fala da Beneficência Portuguesa, queremos informar que a senhora Rosa está internada com pneumonia. A senhora Rosa, minha avó, estava internada com pneumonia. Apenas olhei para minha mãe. Havia parado de dizer, parafraseando Fante (que eu detesto), que doismilenove tinha sido um ano ruim em julho.
Separação, tentativa de voltar, separação, novo-velho amor, separação, novo-novo amor, separação, separação, separação e separação. Trata-se sempre de caminhar para a despedida. Acho que, dos 20 anos até aqui, só acumulei experiências que foram me tornando mais e mais descrente e apática. Finjo que tento estabelecer relações, criar pontes, quando, na verdade, estou mais encastelada a cada dia. As pessoas vão e vêm e eu fico. De pé. Tanto faz. O mundo não se ressente por nada; eu não me ressinto por nada. Lembro que, aos 9 anos, assistindo ao Globo Repórter, fiquei chocada com um grupo de pessoas que morrera soterrado numa dessas chuvas de março. E agora, mãe? E agora? Agora, filha, nada. Agora a gente continua vivendo. Como se não soubéssemos disso? É.
Mas, 2010 esta aí, e estamos todos protegidos por Iemanjá, porque, veja bem, este ano eu coloquei as flores.
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29 de Dezembro de 2009

Não, não sei o que eu estava esperando dessa maluquice toda. Só sei que: não rolou. A impressão que tenho é de que são muitas variáveis – impossíveis de prever e controlar. Lembra um pouco aquele papo da Teoria do Caos, sabe? Na verdade, a Teoria não estuda a desordem, mas a possibilidade de enxergar algum padrão dentro da desordem. Mas é mesmo difícil identificar o tal padrão. Por isso, tanta confusão em acertar a previsão meteorológica, por exemplo.
Estava olhando para o céu esperando nuvens carregadas e aquele Rio de Janeiro cinza, monocromático, de que tanto gosto. Aqueles dias em que as pessoas correm pelas ruas, trombando uma nas outras, se espremendo entre as marquises e colorindo as faixas de pedestres com os seus guarda-chuvas. Queria a urgência do toque e aquele desejo de abismo. Mas não: dia de sol e as pessoas correndo e andando de bicicleta pela Lagoa, enchendo os bares com os seus chopes e conversas sobre futebol e mulheres. Aquele mormaço que nos empurra para a lentidão e apatia.
“Meu bem, tanto faz”.
23 de Dezembro de 2009
A conversa sobre beleza socialmente instituída e futilidade, me lembrou uma passagem do Memórias Póstumas de Brás Cubas, do Machado de Assis:
“O pior é que era coxa. Uns olhos tão lúcidos, uma boca tão fresca, uma compostura tão senhoril; e coxa! Esse contraste faria suspeitar que a natureza é às vezes um imenso escárnio. Por que bonita, se coxa? por que coxa, se bonita? Tal era a pergunta que eu vinha fazendo a mim mesmo ao voltar para casa, de noite, sem atinar com a solução do enigma. O melhor que há, quando se não resolve um enigma, é sacudi-lo pela janela fora; foi o que eu fiz; lancei mão de uma toalha e enxotei essa outra borboleta preta, que me adejava no cérebro. Fiquei aliviado e fui dormir. Mas o sonho, que é uma fresta do espírito, deixou novamente entrar o bichinho, e aí fiquei eu a noite toda a cavar o mistério, sem explicá-lo”.
22 de Dezembro de 2009
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diante da necessidade de matar o que sobrou de uma relação e com a possibilidade de construir outra.
22 de Dezembro de 2009
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Encontraria a Maga? (…) Era muito natural atravessar a rua, subir as escadas da ponte, dar mais alguns passos e aproximar-me de Maga, que sorria sempre, sem surpresa, convencida, como eu também o estava, de que um encontro casual era o menos casual em nossas vidas e de que as pessoas que marcam encontros exatos são as mesmas que precisam de papel com linhas para escrever e apertam a parte de baixo do tubo de pasta de dente. (…) Andávamos por Paris sem nos procurarmos, mas sabendo sempre que andávamos para nos encontrar. Oh, Maga! Cada mulher parecida com você trazia como um silêncio ensurdecedor, uma pausa, rendada e cristalina, que acabava por murchar tristemente, como um guarda-chuva que se fecha.
16 de Dezembro de 2009
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por Recife se justife aqui e aqui.
15 de Dezembro de 2009
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Gil sussurra: ame-o e deixe-o livre para amar; deixe-o ir aonde quiser; deixe-o brincar; deixe-o ser o que ele é. O ministro sabe das coisas.
14 de Dezembro de 2009

, que eu decidi dizer que foi qualquer coisa nesse seu meio-sotaque – nem lá nem cá. Ou no jeito que você manipula o mundo a sorrir junto com você. Basta isso para que eu não cumpra nenhuma das minhas promessas de nunca-mais. Porque, né, o mundo está sorrindo e essa música é mesmo linda e o álcool e você dançando e você passando a mão no cabelo e você e você e você.
Paulinho da Viola canta: “não sei se o que trago no peito é ciúme, despeito, amizade ou horror”. Esqueço que não existe nada mais comum do que sofrer por um fim (antes do início) e acredito que Paulinho canta para mim. Paulinho canta para justificar todas as minhas idas e vindas, todo o meu oscilar entre amizade e horror.
Se eu colocar um nariz de palhaço, talvez o fato de estar apaixonada pareça mesmo engraçado.
1 de Dezembro de 2009
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Corpo, esta prisão através da qual nos impregnamos de vida. Esta pilha de dias que nos conduz, alógica, a um destino único. Inevitável. Vamos todos morrer de tempo; de dias.
Num desses domingos sem importância, um grupo de crianças deságua nas escadas que ligam o meu bairro ao Centro. Divertem-se riscando os degraus com giz colorido, correm sem direção, gritam e sujam-se de vida. Não importa nada, além do prazer daquele momento. Em nada me diferencio daquelas crianças – mas brinco de construir um arcabouço de futuro, o que não me traz prazer algum; é só ocupação.
Então a vida é uma integral de ocupações que pretendem distrair os sentidos e a razão do inevitável. Saciamos os sentidos com sexo, comida e sono; e a razão com conhecimento. E, para suavizar este processo ininterrupto e desesperado de ocupação, inventamos o amor. Diferente da dor e do prazer, o amor não é uma pulsão natural; é um conceito. Há que se aprender a amar, dizem.
O amor, este conceito equivocado, que nos faz construir uma prisão dentro da outra, biológica; esta puta que nos enche de moral e nos leva a negar o que há de mais genuíno, o desejo. Há que se aprender a desejar e se proteger das fraquezas. Há que se filosofar com o martelo.