Wille Zur Macht
Corpo, esta prisão através da qual nos impregnamos de vida. Esta pilha de dias que nos conduz, alógica, a um destino único. Inevitável. Vamos todos morrer de tempo; de dias.
Num desses domingos sem importância, um grupo de crianças deságua nas escadas que ligam o meu bairro ao Centro. Divertem-se riscando os degraus com giz colorido, correm sem direção, gritam e sujam-se de vida. Não importa nada, além do prazer daquele momento. Em nada me diferencio daquelas crianças – mas brinco de construir um arcabouço de futuro, o que não me traz prazer algum; é só ocupação.
Então a vida é uma integral de ocupações que pretendem distrair os sentidos e a razão do inevitável. Saciamos os sentidos com sexo, comida e sono; e a razão com conhecimento. E, para suavizar este processo ininterrupto e desesperado de ocupação, inventamos o amor. Diferente da dor e do prazer, o amor não é uma pulsão natural; é um conceito. Há que se aprender a amar, dizem.
O amor, este conceito equivocado, que nos faz construir uma prisão dentro da outra, biológica; esta puta que nos enche de moral e nos leva a negar o que há de mais genuíno, o desejo. Há que se aprender a desejar e se proteger das fraquezas. Há que se filosofar com o martelo.
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