Em Salvador, vou dançar
Disse um velho orixá pra oxalá
Pra acreditar
Pra não temer, temer, temer
Desses tempos verdadeiros
Tempos maus
(Janaína, Otto)
O céu derramava o seu chumbo por sobre o castigado mar do Flamengo. Na manhã do dia 31 de dezembro, debaixo de chuva, apenas alguns garis recolhiam folhas secas das areias da praia, enquanto meia dúzia de desavisados enfrentavam os raios para oferecer flores à Iemanjá. Em 2008, não viemos e veja só, veja só. Não acredito que Iemanjá tenha sentido falta das nossas rosas, mãe. É claro que sentiu, é claro, veja só, veja só. Do nosso lado, um casal contava as sete ondas: ela dava pulos desajeitados, segurando a saia; ele, ao perceber a nossa presença, ficou imóvel – criança que quebrou o vaso de porcelana da mãe. Do outro lado é o quê? Niterói? Não sei, mãe, creio que sim. E lá adiante? Acho que é a Urca. Não tenho certeza.
Embora estivéssemos ridiculamente vestidas, com aquelas capas de chuva de camelô, as nossas roupas ficaram ensopadas e, ao nos movimentarmos, fazíamos uns barulhos esquisitos, impossíveis de serem reproduzidos por qualquer onomatopéia. O celular da minha mãe tocou. Aqui fala da Beneficência Portuguesa, queremos informar que a senhora Rosa está internada com pneumonia. A senhora Rosa, minha avó, estava internada com pneumonia. Apenas olhei para minha mãe. Havia parado de dizer, parafraseando Fante (que eu detesto), que doismilenove tinha sido um ano ruim em julho.
Separação, tentativa de voltar, separação, novo-velho amor, separação, novo-novo amor, separação, separação, separação e separação. Trata-se sempre de caminhar para a despedida. Acho que, dos 20 anos até aqui, só acumulei experiências que foram me tornando mais e mais descrente e apática. Finjo que tento estabelecer relações, criar pontes, quando, na verdade, estou mais encastelada a cada dia. As pessoas vão e vêm e eu fico. De pé. Tanto faz. O mundo não se ressente por nada; eu não me ressinto por nada. Lembro que, aos 9 anos, assistindo ao Globo Repórter, fiquei chocada com um grupo de pessoas que morrera soterrado numa dessas chuvas de março. E agora, mãe? E agora? Agora, filha, nada. Agora a gente continua vivendo. Como se não soubéssemos disso? É.
Mas, 2010 esta aí, e estamos todos protegidos por Iemanjá, porque, veja bem, este ano eu coloquei as flores.
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