Arquivo de Janeiro de 2010

30 de Janeiro de 2010

Morreste-me

Postado em Estante por sophrosyne.hybris@gmail.com

“Vou. Avanço, avanço e regresso. E cada quilómetro, um mês; e cada metro, um dia. Avanço para o que fomos. Encontrei nas pedras deste caminho, no luminescente desta viagem, um espaço por onde entrei e acelero, onde cada quilómetro em frente é um mês que recuo. E avanço neste caminho que fizemos mil vezes juntos e avançam as estações do ano: primavera inverno outono verão primavera inverno… E avançam os quilômetros neste sítio onde entro como se caísse. Vertiginosamente. Atiro-me neste poço, no fundo que não se vê deste poço. E há tanta luz. Há os instantes que vivemos mil vezes juntos e que agora nascem sem nós e nos ultrapassam. Há o sol que partilhamos mil vezes e que agora não te aquece, que agora não me aquece. Pai. Passo por tudo e tudo me deixa e passa por mim. Caio. Avanço. Regresso.”

25 de Janeiro de 2010

Sobre barcos e ilhas

Postado em Diarices por sophrosyne.hybris@gmail.com

corvo.jpg

 

Em 1943, minha avó materna chegou ao Bairro de Santa Teresa, Rio de Janeiro, onde abriu uma mercearia. Nascida em Corvo, menor ilha do arquipélago português de Açores (superfície total de 17,13 km², com 6,5 km de comprimento por 4 km de largura e apenas 425 habitantes), dona Rosa foi a maior referência na minha infância, cresci ouvindo fado e estórias sobre o pequeno vilarejo.

Tenho a impressão de que a minha família nunca deixou aquela ilha – ou eu é que não.

A vila de Corvo é o local habitado mais isolado de Portugal. Durante o Inverno, as ligações marítimas, apesar de regulares, são fortemente condicionadas pelo estado do mar e pelo vento, já que o Porto da Casa não fornece abrigo que permita a operação com tempo adverso. No entanto, durante o Verão, chega a haver várias ligações por dia, usando barcos rápidos que fazem o trajeto entre o Corvo e Santa Cruz das Flores em cerca de 30 minutos.

Sinto o mar acariciando violentamente os meus pés – talvez ainda seja inverno. Estou presa aqui, esperando que, em breve, o verão inicie a faíscar.

24 de Janeiro de 2010

Botequim filosófico I

Postado em Estante por sophrosyne.hybris@gmail.com

960f82945dba7d7efdb79a21ece06dcf76df8d70_m.jpg

“O que fazemos aqui, nós, que vamos desaparecer?”, “Caminhamos”. Chão de terra, grama, pedras e o estalar da madeira; da floresta; do mundo. O céu termina na copa das árvores. E nós estamos no caminho. Mas aqui, no meio do nada, ninguém consegue ver o que nos rói o peito. Estamos (eu e a dor) protegidos da platéia por árvores e montanhas e estradas de terra; por sangue, músculos e ossos.

Para Schopenhauer, a dor é um escândalo, uma perturbação que deveria ser eliminada. A solução para a questão da dor, ainda segundo Schopenhauer, é o princípio da negação da vontade: o segredo para alcançar a felicidade absoluta é aprender a renunciar. Este princípio era um dos pontos de discordância entre Nietzsche e Schopenhauer. Para Nietzsche, a dor é parte essencial de toda existência.

Nietzsche, século XIX, filósofo que acreditava ter nascido póstumo, que acreditava que nós, seres iluminados do século XXI, seríamos capazes de compreender a sua obra. Nietzsche se mostrou, por fim, um otimista. A sua obra sobrevive num punhado de frases extirpadas de textos e enfiadas nesta enorme conversa de botequim que é a Internet (e a vida).“Deus está morto”, “Viva”. Poderíamos, nós, filósofos de botequim, apreciadores de cerveja e frases feitas, tentar entender o real significado daquilo que apenas repetimos?

Nossa sociedade, abarrotada de nietzschianos, continua se envergonhando das suas dores. Eu continuo me envergonhando das minhas dores. Sigo uma fraude. Pseudo-nietzschiana. Sigo estrangeirando nesta floresta – neste corpo – que me isola e protege.

24 de Janeiro de 2010

Inerte

Postado em Diálogos, Estante por sophrosyne.hybris@gmail.com

“Parei de andar de um lado para o outro, fui até a janela, afastei as cortinas e fiquei a vê-los correrem, os mesmos de sempre , a debaterem-se com aquelas enormes mangas de sempre, os livros de sempre e os colarinhos de sempre”. Faulkner

“A maior riqueza do homem é a sua incompletude. Nesse ponto sou abastado. Palavras que me aceitam como sou – eu não aceito. Não agüento ser apenas um sujeito que abre portas, que puxa válvulas, que olha o relógio, que compra pão às 6 horas da tarde, que vai lá fora, que aponta lápis, que vê a uva etc. etc. Perdoai. Mas eu preciso ser Outros. Eu penso renovar o homem usando borboletas”. Manoel de Barros

21 de Janeiro de 2010

We’re trash, you and me

Postado em Estante por sophrosyne.hybris@gmail.com

mcginley_marcel_ann__coley.jpg

http://www.ryanmcginley.com

18 de Janeiro de 2010

Show me from behind the wall

Postado em Diálogos por sophrosyne.hybris@gmail.com

A Internet é um simulacro da realidade; é uma sombra manipulada daquilo que somos. E, quando decidimos quais adjetivos serão projetados (e de que forma), acabamos criando a criatura que nos representa. E nos habita. The Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde.

No entanto, conhecer a criatura não é conhecer o criador. E quem poderia afinal conhecer o criador? Se nem ele próprio. Quando estudei física, era comum ouvir alguns colegas fazerem piadas com outras ciências “menos exatas”, como a psicologia. Claro: o objeto de estudo da psicologia, em constante mutação, não pode ser apreendido com a mesma facilidade que uma bola de aço. Não somos exatos. Do Homem, se obtém apenas recortes de realidade. Fotografias.

Ah, mas existe a questão da essência; aquilo que, se retirado, nos impediria de existir; aquilo que repousa sob as aparências. Mas é possível apontar a essência de um indivíduo a partir do que lemos e vemos aqui na virtualândia? Tanta pretensão, nem o nosso esforçado psicólogo, Freud, explica.

Beijos (meus e do Caê:

You don’t know me
Bet you’ll never get to know me
You don’t know me at all
Feel so lonely
The world is spinning round slowly
There’s nothing you can show me)

 

14 de Janeiro de 2010

Agora sim:

Postado em Rabugices por sophrosyne.hybris@gmail.com

O leite, o sentimento, a bruta, esfera, o fim, o jeito, o medo, o beijo, o vero, o ero, o raro
O falo, o dado
O olho tosco, o rosto, sopro, gosto ruim
O dado, o olho tosco, o rosto, solto ruim

13 de Janeiro de 2010

Enquanto isso, no reino encantado

Postado em Diálogos por sophrosyne.hybris@gmail.com

d28c8c392129a19ead9e61d95df9d7efcfe4ecb2_m.jpg

Maria Rita Kehl, em seu livro Videologias, afirma que a visibilidade na sociedade de massas não se constrói na ação política, nem pela delegação que os sujeitos concedem ao líder ou ídolo que melhor represente o conjunto de seus ideais. A visibilidade depende exclusivamente da aparição da imagem corporal no campo do Outro.

Sexta-feira. 17h. Metrô do Rio de Janeiro. Milhares de pessoas. Não consigo fixar o olhar. O que faz a moça sentada no banco colorido abaixo do relógio deixar de ser invisível? Não basta a imagem corporal para alguém se desprender da multidão e ganhar contorno. Cor. Sentada no banco colorido, ela. Não sei explicar quais foram os motivos que me fizeram olhá-la. Talvez nenhum.

Poderia supor que a beleza, num primeiro momento, baste para que se olhe alguém. Mas a beleza está longe de ser um conceito universal. Para quase todos os transeuntes, aquela menina nunca terá existido. Para muitas pessoas, eu nunca terei existido. Aqui, no reino encantado dos quentes e letristas, você só existe a partir do seu aposto: fulano, que publicou dois livros, e…

Não concluí o meu romance. Não trabalho numa editoria hype de um veículo cool. Não estudei na PUC. Não moro no Leblon. Não gosto de Bukowski nem de Fante. Não escrevo sobre a minha vida. Não nasci erudita. Sim, talvez para você eu não exista.

Estamos vivendo em uma sociedade regulada majoritariamente não mais pela política ou pela religião, nem pela repressão imposta pelas diversas pedagogias, mas pelo espetáculo, ressalta Kehl. O espetáculo do reino encantado é mais discreto, mas não menos previsível.

12 de Janeiro de 2010

Viver

Postado em Verborrágica por sophrosyne.hybris@gmail.com

b385e3dcdcdf3929ecda2658c2831876d1dff198_m.jpg

Segundo a gramática, verbo é a palavra com a qual se afirma a existência de uma ação. Então, antes de tudo, é preciso escolher um verbo, o verbo. Este amontoado de letras que me fará vencer o calor e sair da cama; que me fará atravessar a linha imaginária entre a galeria e o quadro. Não fui eu que pintei. Não sou eu na tela, segurando cubisticamente, um ramo de flores. Também não escrevi nenhum dos livros que acumulam poeira na estante do quarto. E, claro, não compus a música que está tocando. O único verbo que me cabe é procrastinar.

Sócrates, antes de morrer, disse que devia um galo a Esculápio, Deus da medicina. Causando certa perplexidade, já que a frase costumava ser dita quando doentes alcançavam a cura. Talvez a doença de Sócrates fosse o próprio corpo.

Talvez. 

O sagrado, no sentido antropológico, é o que dá sentido a vida e significado a morte. E o que seria o sagrado de um filósofo senão a palavra? Estão (todos os que encontram o seu verbo, a sua palavra) vivos. Não há o que temer.

Talvez o meu verbo seja concluir.

10 de Janeiro de 2010

.

Postado em Diálogos por sophrosyne.hybris@gmail.com

O que eu faço com essa saudade?