Enquanto isso, no reino encantado
Maria Rita Kehl, em seu livro Videologias, afirma que a visibilidade na sociedade de massas não se constrói na ação política, nem pela delegação que os sujeitos concedem ao líder ou ídolo que melhor represente o conjunto de seus ideais. A visibilidade depende exclusivamente da aparição da imagem corporal no campo do Outro.
Sexta-feira. 17h. Metrô do Rio de Janeiro. Milhares de pessoas. Não consigo fixar o olhar. O que faz a moça sentada no banco colorido abaixo do relógio deixar de ser invisível? Não basta a imagem corporal para alguém se desprender da multidão e ganhar contorno. Cor. Sentada no banco colorido, ela. Não sei explicar quais foram os motivos que me fizeram olhá-la. Talvez nenhum.
Poderia supor que a beleza, num primeiro momento, baste para que se olhe alguém. Mas a beleza está longe de ser um conceito universal. Para quase todos os transeuntes, aquela menina nunca terá existido. Para muitas pessoas, eu nunca terei existido. Aqui, no reino encantado dos quentes e letristas, você só existe a partir do seu aposto: fulano, que publicou dois livros, e…
Não concluí o meu romance. Não trabalho numa editoria hype de um veículo cool. Não estudei na PUC. Não moro no Leblon. Não gosto de Bukowski nem de Fante. Não escrevo sobre a minha vida. Não nasci erudita. Sim, talvez para você eu não exista.
Estamos vivendo em uma sociedade regulada majoritariamente não mais pela política ou pela religião, nem pela repressão imposta pelas diversas pedagogias, mas pelo espetáculo, ressalta Kehl. O espetáculo do reino encantado é mais discreto, mas não menos previsível.
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