Desengano no Montmartre carioca
Correndo pelas ruas de pedra, subindo escadas, tropeçando no gato vira-lata e nas gargalhadas. Não, você não me pega. Minha mãe, da varanda da casa, me chama para tomar banho e lanchar. Só mais um pouquinho. Não, já está escuro. Entra. Depois de comer (ainda espalhando farelos de bolo de milho), sento na poltrona de cobertura de crochê. Na sala de jantar, minha avó comenta que dona Maria, nossa vizinha, havia sido desenganada pelos médicos. Foi a primeira vez que ouvi a palavra desenganada. Mas o que significa ser desenganada?
Dona Maria estava doente. E, no final da manhã de domingo, foi informada da gravidade do seu caso. Foi desenganada. Até aquele momento ela vivera enganada? Todas as manhãs, quando alimentava o gato e regava as plantas, dona Maria, ao suspirar de cansaço, não pensava na morte; não pensava que a realidade é fruto da tensão entre os opostos. Dia e noite, alegria e tristeza, presença e ausência, calor e frio. Vida e morte.
“O ser não é mais que o não-ser”. No caos que rege os acontecimentos do nosso cotidiano, o ser e o nada têm o mesmo valor – entender isto, alguns anos depois da perda de dona Maria, foi o meu primeiro desengano.
Somos tão frágeis quanto este bichinho que tenta nadar até a borda da piscina. Ele vai se afogar! Tento salvá-lo. Em vão. É, talvez na realidade deste bicho, na sua rotina de voar sobre as piscinas, ele também se julgue imortal.
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