Não abra
Pandora, a primeira mulher, foi criada por Hefesto e Atena, com o auxílio de todos os deuses. Antes de enviar Pandora à Terra, Zeus entregou-lhe uma caixa, recomendando que ela jamais fosse aberta. Dentro dela, os deuses haviam colocado um arsenal de desgraças para o homem, como a discórdia, a guerra e todas as doenças do corpo e da mente mais um único dom: a esperança.
Calor. A sensação térmica era, segundo o jornal da tarde, de cinqüenta graus. Não conseguia dormir – o ventilador soprava um vento quente tão quente, que: levantei. Acendi um cigarro. Depois de todas os cinzeiros (e palavras) arremessados, era possível constatar que a pior punhalada vem do cabo. E não da faca.
Num impulso, Pandora abriu a caixa.
Tentava não permitir que os pensamentos se fechassem. Não quero fixar, determinar ou definir. Não existe conclusão possível acerca daquilo que é inconcluso. Somos obras abertas afinal. Infinitos. Presos neste maldito movimento pendular: bom e mau, alegria e tristeza, amor e ódio…
E, por mais rápido que a tenha fechado, quase tudo escapara. Exceto
o diabo
da esperança.
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