Todo carnaval tem seu fim
Começou. Não havia como fugir do trânsito – tudo parado. Péssimo dia para voltar a dirigir. A praia de Copacabana está lotada. De longe, é possível perceber o movimento silencioso da cidade que, aos poucos, se torna caricatura de si mesma. De repente, prédios, ruas e bairros inteiros invadidos: é inevitável. Acabamos (nós, cariocas, milenarmente cansados de vestir a fantasia de carioca) perdidos em sorrisos de samba gasto e pileques de ilusão.
Depois de tantos anos repetindo que essa obrigação de estar alegre me oprime, resolvo apenas me calar. Não faço mais questão de ter razão. Ainda assim, o Rio debocha da minha falta de identificação com o espetáculo: um folião cai sobre o capô do meu carro. Permaneço imóvel por alguns segundos, até que: como operária que verifica a qualidade das peças produzidas em uma fábrica, pergunto se ele está bem. Está. Levanta e passa a existir em danças desajeitadas e beijos soprados aleatoriamente. Está realmente bem.
Estaciono o carro e caminho em direção ao meu prédio. Sinto dificuldade de respirar. De repente, prédios, ruas e bairros inteiros silenciam. Como pode existir o samba sem alguém para escutá-lo? Já não enxergava ou ouvia os blocos. Foi assim que, na Rua da Passagem, matei o carnaval.
Os comentários para este post estão fechados.

