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3 de Março de 2010

Herança

Postado em Diálogos por sophrosyne.hybris@gmail.com

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É uma questão de semântica – tento explicar a ele. Herdei da minha mãe, o sobrenome Pereira. Cristão-novo. Fico imaginando aquelas pessoas apinhadas na periferia das cidades portuguesas, em lugares que eram chamados judiarias, impedidos de praticar seus rituais e sendo perseguidos pela inquisição e obrigados a se converter e mudar de nome. Pereira. Mas eu assino apenas Daniela Lima. Lima é o último sobrenome do meu pai, de origem portuguesa, como Pereira. Meu avô por parte de pai era português e a minha avó, italiana. Lima deriva de Limia, palavra celta, que significaria esquecimento. Como disse antes, é uma questão de semântica.

Daniela, você não é necessariamente um somatório das dores dos seus antepassados. Mas enfim, você pode ser o que quiser. E, se você quiser ser um urso, eu serei um urso também.

16 de Fevereiro de 2010

Lost in translation

Postado em Diálogos, Estante por sophrosyne.hybris@gmail.com

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00:19:31,475 –> 00:19:33,514
The more you know
who you are,

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00:19:33,634 –> 00:19:35,673
And what you want,

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00:19:35,793 –> 00:19:38,473
The less you let…

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00:19:38,553 –> 00:19:40,632
Things upset you.

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00:19:41,632 –> 00:19:43,471
Yeah.

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00:19:44,551 –> 00:19:46,830
I just don’t know
what I’m supposed to be.

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00:19:47,830 –> 00:19:49,709
You know?

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00:19:49,829 –> 00:19:51,629
I tried being a writer, but…

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00:19:51,749 –> 00:19:53,548
I hate what I write.

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00:19:53,668 –> 00:19:57,347
And I tried taking pictures,

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00:19:57,427 –> 00:20:00,546
But they’re so mediocre,
you know.

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00:20:00,666 –> 00:20:04,385
Every girl goes through
a photography phase.

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You know, like horses?

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00:20:07,065 –> 00:20:10,824
You know?
Take, uh, dumb pictures of your feet.

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00:20:13,383 –> 00:20:16,462
You’ll figure that out.

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00:20:16,582 –> 00:20:19,021
I’m not worried about you.

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00:20:21,541 –> 00:20:23,340
Keep writing.

14 de Fevereiro de 2010

Conselhos

Postado em Diálogos por sophrosyne.hybris@gmail.com

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Serendipidade tem origem na palavra inglesa serendipity, por vezes também traduzida como serendipitia, significa: a característica de se encontrar, por acidente, algo bom ou valioso enquanto se procurava outra coisa. Serendipidade é o acaso benevolente. Mas qual é a probabilidade de um acaso ser benevolente e não estúpido ou irrelevante?

Acabei me lembrando de um trecho d’A Insustentável Leveza do Ser, do Milan Kundera: “Sete anos antes, um caso difícil de meningite aparecera por acaso no hospital da cidade onde morava Tereza, e o chefe do departamento onde Tomas trabalhava havia sido chamado com urgência para uma consulta. Mas, por acaso, o chefe do serviço estava com ciática, impossibilitado de se mexer, e mandou Tomas em seu lugar a esse hospital de província. Havia cinco hotéis na cidade, mas Tomas hospedou-se por acaso no hotel em que Tereza trabalhava. Por acaso, tinha um momento disponível antes da partida do trem, e foi sentar-se no restaurante. Tereza por acaso estava trabalhando, e por acaso servia a mesa de Tomas. Foram necessários seis acasos para impelir Tomas até Tereza, como se, por conta própria, nada o tivesse conduzido até ela”.

Não procure; acredite no acaso. Mas não: eu não acredito. Em nada. Matematizo, calculo, observo e, sim, procuro.

10 de Fevereiro de 2010

Domando rios

Postado em Diálogos, Estante por sophrosyne.hybris@gmail.com

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Em 2001, a escritora Patrícia Melo adaptou Bufo & Spallanzani, romance de Rubem Fonseca, para o cinema. Curiosamente, Rubem Fonseca adaptou o romance O Matador, de Patrícia, para o cinema em 2003.

A última cena de O Homem do Ano, título da adaptação de O Matador, é descrita assim:

INT/EXT. ESTRADA/ CARRO - AMANHECER

Máiquel, de cabelo preto, dirige seu carro.
MÁIQUEL (V.O.)

A vida é uma coisa engraçada, se você
deixar, ela vai sozinha, como um rio.
Mas você também pode botar um cabresto e
fazer da vida o seu cavalo. A gente faz
da vida o que quer. Cada um escolhe a
sua sina. Cavalo ou rio.

Essa frase fez um vaivém terrível na minha cabeça. E acabei concluindo que não se pode escolher entre cavalo e rio, já que a vida abrange os dois. Cavalo é como a virtù, de Maquiavel, ou seja: a capacidade do indivíduo de controlar as ocasiões e acontecimentos. Já o Rio seria a Fortuna, que representa o acaso.

[O meu grande erro, em relacionamentos, é achar que com cordas e esporas é possível domar um rio. Cordas e esporas não servem sequer para domar as minhas pulsões]

Primeira cena de O Homem do ano:

EXT. RUA DO SUBÚRBIO/ CASA DE MÁIQUEL - DIA
Máiquel caminha pelo exterior do prédio até a porta de sua
casa. Ele entra.
MÁIQUEL (V.O.)

Antes da gente nascer, alguém, talvez
Deus, define direitinho como é que vai
foder a sua vida. Essa era a minha
teoria. Deus só pensa no homem na
largada, quando decide se a sua vida vai
ser boa ou ruim. Quando não tem tempo,
faz uma guerra, um furacão e mata uma
porrada de gente, sem ter que pensar em
nada. (veja o roteiro inteiro aqui)

Rubão, talvez Deus seja o acaso.

6 de Fevereiro de 2010

Não abra

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Pandora, a primeira mulher, foi criada por Hefesto e Atena, com o auxílio de todos os deuses. Antes de enviar Pandora à Terra, Zeus entregou-lhe uma caixa, recomendando que ela jamais fosse aberta. Dentro dela, os deuses haviam colocado um arsenal de desgraças para o homem, como a discórdia, a guerra e todas as doenças do corpo e da mente mais um único dom: a esperança.

Calor. A sensação térmica era, segundo o jornal da tarde, de cinqüenta graus. Não conseguia dormir – o ventilador soprava um vento quente tão quente, que: levantei. Acendi um cigarro. Depois de todas os cinzeiros (e palavras) arremessados, era possível constatar que a pior punhalada vem do cabo. E não da faca.

Num impulso, Pandora abriu a caixa.

Tentava não permitir que os pensamentos se fechassem. Não quero fixar, determinar ou definir. Não existe conclusão possível acerca daquilo que é inconcluso. Somos obras abertas afinal. Infinitos. Presos neste maldito movimento pendular: bom e mau, alegria e tristeza, amor e ódio…

E, por mais rápido que a tenha fechado, quase tudo escapara. Exceto

o diabo

da esperança.

24 de Janeiro de 2010

Inerte

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“Parei de andar de um lado para o outro, fui até a janela, afastei as cortinas e fiquei a vê-los correrem, os mesmos de sempre , a debaterem-se com aquelas enormes mangas de sempre, os livros de sempre e os colarinhos de sempre”. Faulkner

“A maior riqueza do homem é a sua incompletude. Nesse ponto sou abastado. Palavras que me aceitam como sou – eu não aceito. Não agüento ser apenas um sujeito que abre portas, que puxa válvulas, que olha o relógio, que compra pão às 6 horas da tarde, que vai lá fora, que aponta lápis, que vê a uva etc. etc. Perdoai. Mas eu preciso ser Outros. Eu penso renovar o homem usando borboletas”. Manoel de Barros

18 de Janeiro de 2010

Show me from behind the wall

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A Internet é um simulacro da realidade; é uma sombra manipulada daquilo que somos. E, quando decidimos quais adjetivos serão projetados (e de que forma), acabamos criando a criatura que nos representa. E nos habita. The Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde.

No entanto, conhecer a criatura não é conhecer o criador. E quem poderia afinal conhecer o criador? Se nem ele próprio. Quando estudei física, era comum ouvir alguns colegas fazerem piadas com outras ciências “menos exatas”, como a psicologia. Claro: o objeto de estudo da psicologia, em constante mutação, não pode ser apreendido com a mesma facilidade que uma bola de aço. Não somos exatos. Do Homem, se obtém apenas recortes de realidade. Fotografias.

Ah, mas existe a questão da essência; aquilo que, se retirado, nos impediria de existir; aquilo que repousa sob as aparências. Mas é possível apontar a essência de um indivíduo a partir do que lemos e vemos aqui na virtualândia? Tanta pretensão, nem o nosso esforçado psicólogo, Freud, explica.

Beijos (meus e do Caê:

You don’t know me
Bet you’ll never get to know me
You don’t know me at all
Feel so lonely
The world is spinning round slowly
There’s nothing you can show me)

 

13 de Janeiro de 2010

Enquanto isso, no reino encantado

Postado em Diálogos por sophrosyne.hybris@gmail.com

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Maria Rita Kehl, em seu livro Videologias, afirma que a visibilidade na sociedade de massas não se constrói na ação política, nem pela delegação que os sujeitos concedem ao líder ou ídolo que melhor represente o conjunto de seus ideais. A visibilidade depende exclusivamente da aparição da imagem corporal no campo do Outro.

Sexta-feira. 17h. Metrô do Rio de Janeiro. Milhares de pessoas. Não consigo fixar o olhar. O que faz a moça sentada no banco colorido abaixo do relógio deixar de ser invisível? Não basta a imagem corporal para alguém se desprender da multidão e ganhar contorno. Cor. Sentada no banco colorido, ela. Não sei explicar quais foram os motivos que me fizeram olhá-la. Talvez nenhum.

Poderia supor que a beleza, num primeiro momento, baste para que se olhe alguém. Mas a beleza está longe de ser um conceito universal. Para quase todos os transeuntes, aquela menina nunca terá existido. Para muitas pessoas, eu nunca terei existido. Aqui, no reino encantado dos quentes e letristas, você só existe a partir do seu aposto: fulano, que publicou dois livros, e…

Não concluí o meu romance. Não trabalho numa editoria hype de um veículo cool. Não estudei na PUC. Não moro no Leblon. Não gosto de Bukowski nem de Fante. Não escrevo sobre a minha vida. Não nasci erudita. Sim, talvez para você eu não exista.

Estamos vivendo em uma sociedade regulada majoritariamente não mais pela política ou pela religião, nem pela repressão imposta pelas diversas pedagogias, mas pelo espetáculo, ressalta Kehl. O espetáculo do reino encantado é mais discreto, mas não menos previsível.

10 de Janeiro de 2010

.

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O que eu faço com essa saudade?

23 de Dezembro de 2009

É:

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A conversa sobre beleza socialmente instituída e futilidade, me lembrou uma passagem do Memórias Póstumas de Brás Cubas, do Machado de Assis:

“O pior é que era coxa. Uns olhos tão lúcidos, uma boca tão fresca, uma compostura tão senhoril; e coxa! Esse contraste faria suspeitar que a natureza é às vezes um imenso escárnio. Por que bonita, se coxa? por que coxa, se bonita? Tal era a pergunta que eu vinha fazendo a mim mesmo ao voltar para casa, de noite, sem atinar com a solução do enigma. O melhor que há, quando se não resolve um enigma, é sacudi-lo pela janela fora; foi o que eu fiz; lancei mão de uma toalha e enxotei essa outra borboleta preta, que me adejava no cérebro. Fiquei aliviado e fui dormir. Mas o sonho, que é uma fresta do espírito, deixou novamente entrar o bichinho, e aí fiquei eu a noite toda a cavar o mistério, sem explicá-lo”.