Arquivo na categoria Diarices

2 de Setembro de 2010

Impressões sobre o fim de semana

Postado em Diarices por sophrosyne.hybris@gmail.com

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Impressão, caneta bic, aquarela e phoshop.

3 de Agosto de 2010

El otro, el mismo

Postado em Diarices por sophrosyne.hybris@gmail.com

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Sim. Deixe-me invadir por toda sorte de idéias de amor e devoção, enquanto os meus olhos se perdiam no contorno do seu rosto – branco diluído em azul, um tom de desmaio doce. Todos os problemas, que nós hospedávamos, tomaram uma suavidade de suspiro perdido.

[nunca se trata de perdão externo, mas de perdoar-se a si mesmo]

Abraçados, experimentávamos a imobilidade do êxtase. Fim de tarde. E as montanhas, árvores, casas, ruas e pessoas, tudo sofria de um recolhimento melancólico. Luzes que começavam a acender. Tempo. Consciência de tempo. E a minha respiração se descontrolando a cada minuto soprado para longe do presente.

26 de Julho de 2010

Mrs Dalloway

Postado em Diarices, Diálogos por sophrosyne.hybris@gmail.com

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Não fazer nada é fazer alguma coisa. Ou melhor: não falar nada. Fazer é falar. Palavras, palavras, palavras… Deitada no chão. Poderia tentar uma frase curta, jornalística, dessas pontuadas apenas por uma vírgula. Sem qualquer afetação retórica. Um vulto cresce em minha direção. Continuo encolhida. É ele. Não, eu não preciso de ajuda. Que diabos! Ele passa a mão no meu rosto. Sacudo a cabeça.

Por que estou pensando com essas frases curtas?

Gostaria mesmo é de silenciar os pensamentos, tenho certeza de que você também explode em pensamentos, está completamente desestruturado, tanto quanto eu, ou mais até, mas não aparenta, porque sou eu no chão afinal, eu assumi a figura mais óbvia de todas, estou no chão, e você acha, claro, que estou pedindo ajuda, não estou, não quero te contaminar com a minha dor, você não sabe como é isso, vai ser assim para sempre, até o fim, o último dia, e você vai sofrer por me ver sofrer, putaqueopariu, vá embora, agora, enquanto há tempo.

Não consigo dizer nada. E, para deixar o quadro ainda mais melodramático, sinto falta de ar. Tenho vontade de chorar e abraçá-lo e admitir que preciso de ajuda, que não, meu amor, não tá tudo bem, mas ele vai ser capaz de compreender?, não, não vai, ele vai dizer que é drama, que estou exagerando e que “vai ficar tudo bem”, não vai, não vai, não vai.

Outro dia, ele estava calado e… Não: calado, não. Calado, ele está sempre. Sei lá, parecia triste. Então, eu e a minha exuberância léxica tentamos ajudar, compreender, a partir do meu ponto de vista, claro, o que estava acontecendo com ele, se eu não me vejo sentindo o mesmo, é besteira, drama, exagero. Acho essa conclusão engraçada. As pessoas só são capazes de julgar a partir de si mesmas. Ninguém se move de si. Nem eu. Falta de ar. Visão turva. Ele me abraça. Mas não me pergunta
Por
Quê?

13 de Julho de 2010

Sobre escolhas

Postado em Diarices, Estante por sophrosyne.hybris@gmail.com

Texto do Domingos de Oliveira sobre o período em que cursou engenharia na UFRJ:

Entre os 20 e 25, na faculdade de engenharia. Grandes salas, corredores, tetos altos e janelas largas. Muita gente burra passeando, andando de um lado para o outro. Chamo de burrice o seguinte: a falta de humildade, de amor ao próximo e de uma noção clara da morte. Pessoas que não vêem o mistério que as cerca, o que é realmente de uma cegueira implacável. Porém a vida está em todos os lugares, até na ENE (Escola Nacional de Engenharia). No Largo de São Francisco, chamado assim por causa da igreja velha que tem lá, onde de vez em quando eu entrava (naquele tempo eu era jovem e me incomodava o fato de Deus não existir).

Dos meus cinco anos na faculdade, lembro muito pouco. A falta de transcendência daquela gente. Sua objetividade doentia. Seu espírito de competição constante, essas coisas me davam angústia, me tiravam o ar.

Poderia dizer o mesmo sobre o curso de Física e, não por acaso, me sinto mais realizada em Comunicação Social – e não, não estou ignorando os problemas do curso, das pessoas e os meus. Só me sinto mais feliz – isso é pouco, mas é tudo.

26 de Junho de 2010

Grundlos

Postado em Diarices, Rabugices por sophrosyne.hybris@gmail.com

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Uma semana. Apenas uma semana e a sensação de que poderia ser qualquer outra pessoa ou coisa ou ainda pessoa-coisa no meu lugar. Sempre pôde. Não acredito que exista, para além das nuvens, algo que imponha uma ordem cósmica irrevogável. Ao contrário do que possa parecer, não sou fatalista. Tudo poderia ter acontecido de forma diferente – eu sei. Foi escolha minha. Não, não vamos falar de culpa, deste ranço de pensamento cristão que você insiste em sustentar em seus discursos. Aliás, culpa, destino, o que mais?

Tudo poderia ter acontecido de forma diferente.

Naquela tarde de junho, era eu que esta ali, querendo algum tipo de salvação para o tédio e o vazio; querendo distrair meus pensamentos (e o corpo) da única coisa que é certa e irrevogável para todos. Uma folha se desprende de uma árvore, passeia pelas ruas, amarela, se deixando levar pelo vento, até que: chão. Chão, claro. Mas não ainda.

Uns dias depois, deitada na cama e me sentindo ainda mais óbvia por ter, há dois anos, trilhado o mesmo caminho: numa manhã cinzenta de junho, entreguei a ele aquele livro de capa preta. Não vou dizer o nome do autor. Era um livro, basta. Escrevi umas coisas sobre pedras e areia e água na primeira página. Não lembro bem o quê. Era verdade. Naquele momento, era verdade: eu o amava, fiz promessas e imaginei o futuro. Mas promessas de amor não duram nem o tempo de se terminar uma frase… Eu te am… Não mais.

Naquela tarde de junho, escolhi o chão. E não, não imagino que a dor aqui relatada possa, de alguma maneira, emocionar um terceiro.

Uma semana é pouco. E é tudo.

1 de Maio de 2010

Sobre romantismo

Postado em Diarices por sophrosyne.hybris@gmail.com

No dia em que me pediu em casamento, ele disse: “Quero ficar com o teu cheiro no meu corpo. (…) Já te falei que antes de te conhecer eu tinha horror de boceta?”

15 de Fevereiro de 2010

Um ano

Postado em Diarices por sophrosyne.hybris@gmail.com

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Arrumando o armário, acabei encontrando uma caixa de fotografias. Muitos slides e fotos Polaroid da época em que fiz o primeiro curso no Ateliê da Imagem. Examinava as fotos como se elas pudessem, num detalhe qualquer, me dar respostas sobre o passado. Achei uma Polaroid muito bonita, tirada na Lagoa Rodrigo de Freitas, à época do meu aniversário, em 2008. Alguém me abraça. Antes de me abraçar, pode ter dito qualquer coisa sobre amor. Curioso que, por mais que o corpo estivesse ali, colado, dizendo que “sim, eu te amo”, os olhos não estavam. Os olhos estavam vazios. Pareciam os olhos ausentes da esposa de Amedeo Modigliani  – Modi escolheu não pintar os olhos dela, até que “conseguisse enxergar a sua alma”. Bobagem.

E, durante aquela tarde, ouvi o discurso silencioso das fotos. E desejei que aqueles dois, tão distantes, fossem felizes para sempre. E foram.

1 de Fevereiro de 2010

Desengano no Montmartre carioca

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Correndo pelas ruas de pedra, subindo escadas, tropeçando no gato vira-lata e nas gargalhadas. Não, você não me pega. Minha mãe, da varanda da casa, me chama para tomar banho e lanchar. Só mais um pouquinho. Não, já está escuro. Entra. Depois de comer (ainda espalhando farelos de bolo de milho), sento na poltrona de cobertura de crochê. Na sala de jantar, minha avó comenta que dona Maria, nossa vizinha, havia sido desenganada pelos médicos. Foi a primeira vez que ouvi a palavra desenganada. Mas o que significa ser desenganada?

Dona Maria estava doente. E, no final da manhã de domingo, foi informada da gravidade do seu caso. Foi desenganada. Até aquele momento ela vivera enganada? Todas as manhãs, quando alimentava o gato e regava as plantas, dona Maria, ao suspirar de cansaço, não pensava na morte; não pensava que a realidade é fruto da tensão entre os opostos. Dia e noite, alegria e tristeza, presença e ausência, calor e frio. Vida e morte.

“O ser não é mais que o não-ser”. No caos que rege os acontecimentos do nosso cotidiano, o ser e o nada têm o mesmo valor – entender isto, alguns anos depois da perda de dona Maria, foi o meu primeiro desengano.

Somos tão frágeis quanto este bichinho que tenta nadar até a borda da piscina. Ele vai se afogar! Tento salvá-lo. Em vão. É, talvez na realidade deste bicho, na sua rotina de voar sobre as piscinas, ele também se julgue imortal.

25 de Janeiro de 2010

Sobre barcos e ilhas

Postado em Diarices por sophrosyne.hybris@gmail.com

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Em 1943, minha avó materna chegou ao Bairro de Santa Teresa, Rio de Janeiro, onde abriu uma mercearia. Nascida em Corvo, menor ilha do arquipélago português de Açores (superfície total de 17,13 km², com 6,5 km de comprimento por 4 km de largura e apenas 425 habitantes), dona Rosa foi a maior referência na minha infância, cresci ouvindo fado e estórias sobre o pequeno vilarejo.

Tenho a impressão de que a minha família nunca deixou aquela ilha – ou eu é que não.

A vila de Corvo é o local habitado mais isolado de Portugal. Durante o Inverno, as ligações marítimas, apesar de regulares, são fortemente condicionadas pelo estado do mar e pelo vento, já que o Porto da Casa não fornece abrigo que permita a operação com tempo adverso. No entanto, durante o Verão, chega a haver várias ligações por dia, usando barcos rápidos que fazem o trajeto entre o Corvo e Santa Cruz das Flores em cerca de 30 minutos.

Sinto o mar acariciando violentamente os meus pés – talvez ainda seja inverno. Estou presa aqui, esperando que, em breve, o verão inicie a faíscar.

1 de Dezembro de 2009

Wille Zur Macht

Postado em Diarices por sophrosyne.hybris@gmail.com

Corpo, esta prisão através da qual nos impregnamos de vida. Esta pilha de dias que nos conduz, alógica, a um destino único. Inevitável. Vamos todos morrer de tempo; de dias.

Num desses domingos sem importância, um grupo de crianças deságua nas escadas que ligam o meu bairro ao Centro. Divertem-se riscando os degraus com giz colorido, correm sem direção, gritam e sujam-se de vida. Não importa nada, além do prazer daquele momento. Em nada me diferencio daquelas crianças – mas brinco de construir um arcabouço de futuro, o que não me traz prazer algum; é só ocupação.

Então a vida é uma integral de ocupações que pretendem distrair os sentidos e a razão do inevitável. Saciamos os sentidos com sexo, comida e sono; e a razão com conhecimento. E, para suavizar este processo ininterrupto e desesperado de ocupação, inventamos o amor. Diferente da dor e do prazer, o amor não é uma pulsão natural; é um conceito. Há que se aprender a amar, dizem.

O amor, este conceito equivocado, que nos faz construir uma prisão dentro da outra, biológica; esta puta que nos enche de moral e nos leva a negar o que há de mais genuíno, o desejo. Há que se aprender a desejar e se proteger das fraquezas. Há que se filosofar com o martelo.