Arquivo na categoria Diarices

15 de Fevereiro de 2010

Um ano

Postado em Diarices por sophrosyne.hybris@gmail.com

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Arrumando o armário, acabei encontrando uma caixa de fotografias. Muitos slides e fotos Polaroid da época em que fiz o primeiro curso no Ateliê da Imagem. Examinava as fotos como se elas pudessem, em um detalhe qualquer, me dar respostas sobre o passado. Achei uma Polaroid muito bonita, tirada na Lagoa Rodrigo de Freitas, à época do meu aniversário, em 2008. Alguém me abraça. Antes de me abraçar, pode ter dito qualquer bobagem sobre amor. Curioso que, por mais que o corpo estivesse ali, colado, dizendo que “sim, eu te amo”, os olhos não estavam. Os olhos estavam vazios. Pareciam os olhos ausentes da esposa de Amedeo Modigliani. Modi escolheu não pintar os olhos dela, até que “conseguisse enxergar a sua alma”. Bobagem.

E, durante aquela tarde, ouvi o discurso silencioso das fotos. E desejei que aqueles dois, tão distantes, fossem felizes para sempre. E foram.

1 de Fevereiro de 2010

Desengano no Montmartre carioca

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Correndo pelas ruas de pedra, subindo escadas, tropeçando no gato vira-lata e nas gargalhadas. Não, você não me pega. Minha mãe, da varanda da casa, me chama para tomar banho e lanchar. Só mais um pouquinho. Não, já está escuro. Entra. Depois de comer (ainda espalhando farelos de bolo de milho), sento na poltrona de cobertura de crochê. Na sala de jantar, minha avó comenta que dona Maria, nossa vizinha, havia sido desenganada pelos médicos. Foi a primeira vez que ouvi a palavra desenganada. Mas o que significa ser desenganada?

Dona Maria estava doente. E, no final da manhã de domingo, foi informada da gravidade do seu caso. Foi desenganada. Até aquele momento ela vivera enganada? Todas as manhãs, quando alimentava o gato e regava as plantas, dona Maria, ao suspirar de cansaço, não pensava na morte; não pensava que a realidade é fruto da tensão entre os opostos. Dia e noite, alegria e tristeza, presença e ausência, calor e frio. Vida e morte.

“O ser não é mais que o não-ser”. No caos que rege os acontecimentos do nosso cotidiano, o ser e o nada têm o mesmo valor – entender isto, alguns anos depois da perda de dona Maria, foi o meu primeiro desengano.

Somos tão frágeis quanto este bichinho que tenta nadar até a borda da piscina. Ele vai se afogar! Tento salvá-lo. Em vão. É, talvez na realidade deste bicho, na sua rotina de voar sobre as piscinas, ele também se julgue imortal.

25 de Janeiro de 2010

Sobre barcos e ilhas

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Em 1943, minha avó materna chegou ao Bairro de Santa Teresa, Rio de Janeiro, onde abriu uma mercearia. Nascida em Corvo, menor ilha do arquipélago português de Açores (superfície total de 17,13 km², com 6,5 km de comprimento por 4 km de largura e apenas 425 habitantes), dona Rosa foi a maior referência na minha infância, cresci ouvindo fado e estórias sobre o pequeno vilarejo.

Tenho a impressão de que a minha família nunca deixou aquela ilha – ou eu é que não.

A vila de Corvo é o local habitado mais isolado de Portugal. Durante o Inverno, as ligações marítimas, apesar de regulares, são fortemente condicionadas pelo estado do mar e pelo vento, já que o Porto da Casa não fornece abrigo que permita a operação com tempo adverso. No entanto, durante o Verão, chega a haver várias ligações por dia, usando barcos rápidos que fazem o trajeto entre o Corvo e Santa Cruz das Flores em cerca de 30 minutos.

Sinto o mar acariciando violentamente os meus pés – talvez ainda seja inverno. Estou presa aqui, esperando que, em breve, o verão inicie a faíscar.

1 de Dezembro de 2009

Wille Zur Macht

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Corpo, esta prisão através da qual nos impregnamos de vida. Esta pilha de dias que nos conduz, alógica, a um destino único. Inevitável. Vamos todos morrer de tempo; de dias.

Num desses domingos sem importância, um grupo de crianças deságua nas escadas que ligam o meu bairro ao Centro. Divertem-se riscando os degraus com giz colorido, correm sem direção, gritam e sujam-se de vida. Não importa nada, além do prazer daquele momento. Em nada me diferencio daquelas crianças – mas brinco de construir um arcabouço de futuro, o que não me traz prazer algum; é só ocupação.

Então a vida é uma integral de ocupações que pretendem distrair os sentidos e a razão do inevitável. Saciamos os sentidos com sexo, comida e sono; e a razão com conhecimento. E, para suavizar este processo ininterrupto e desesperado de ocupação, inventamos o amor. Diferente da dor e do prazer, o amor não é uma pulsão natural; é um conceito. Há que se aprender a amar, dizem.

O amor, este conceito equivocado, que nos faz construir uma prisão dentro da outra, biológica; esta puta que nos enche de moral e nos leva a negar o que há de mais genuíno, o desejo. Há que se aprender a desejar e se proteger das fraquezas. Há que se filosofar com o martelo.

10 de Setembro de 2009

Stand by me

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O rosto que, iluminado pela insistente fresta de luz, era a poesia em si; o belo em si. Aquele menino tão cheio de esperanças representava uma possibilidade de retorno; de tornar tangível tudo o que se deixa pelo caminho. E aquele sorriso, meudeus, era de uma inocência atroz.

25 de Agosto de 2009

Jardim selvagem

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O modelo metafísico de Platão se divide em dois níveis: transcendência e imanência. A transcendência é o plano do incorruptível, perfeito e eterno, ou seja: a idéia. Já a imanência, é o plano da matéria; daquilo que se corrompe – estamos caminhando irremediavelmente para a morte.

Na mitologia grega, Tânatos é a personificação da morte, filho de Érebo e Nix, e Eros, filho de Afrodite e Zeus, o Deus do amor. Na teoria das pulsões, de Freud, Tânatos é a pulsão de morte e Eros a pulsão sexual. A pulsão é a tendência ao restabelecimento do estado anterior; e, como o estado anterior à vida é o estado inorgânico, as pulsões buscariam, em confluência, a volta a este estado. As pulsões de autoconservação, que parecem se opor à morte, são pulsões parciais para assegurar no organismo o seu caminho para a morte. Para Freud, sempre havia certo grau de mistura entre as pulsões.

Numa noite de chuva, Eros procurou abrigo numa caverna. Permaneceu sentado por algum tempo, mas logo adormeceu sem perceber que, na penunbra, Tânatos o contemplava. Perdido em seu estado de contemplação, Tânatos não se deu conta de que as suas flechas se misturaram às de Eros.

Em A República, Platão repudia o estado de contemplação – muitas vezes suscitado pela arte – por entender que, neste estado, nos perdemos do caminho do conhecimento. Tânatos se perdeu em Eros; se misturou a Eros. E, desde então,

nenhuma

flecha

é

segura.

20 de Julho de 2009

Just like any other street

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A cidade tão cinza quanto a minha vida e os meus textos. Frio. Fecho o casaco e enfio as mãos nos bolsos. Domingo, quase 22h, quase meu aniversário. Merda. Começo a andar mais depressa. Paro no cruzamento entre a Voluntários e uma daquelas vielas. Postes enfileirados, alguns apagados, ninguém na rua, domingo. Não tenho motivos para ter pressa. Não tenho para quem voltar. Não existem braços esticados. Não existe amor. Não existe nada. Não existe teto, parede, janela, porta: é só chão. Então começa a chover – em mim e na Volutários; em mim, que sou como a Voluntários num domingo qualquer: escura, vazia e sem fim.

4 de Maio de 2009

Movimento dos não-vivos

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Impressionante como estou conseguindo enxergar reflexos de mim nos lugares mais improváveis. Ontem, estudando Teoria da Comunicação, li o seguinte trecho, que estava sob o título “A separação consumada”:

E sem dúvida o nosso tempo… prefere a imagem à coisa, a cópia ao original, a representação à realidade, a aparência ao ser.

Entendo perfeitamente as questões do Debord; se ele fosse menos marxista, o texto teria me trazido um gozo inacreditável, mas é que não dá para engolir coisas do tipo: O espetáculo é o capital em tal grau de acumulação que se torna imagem. Poupe-me, Debord, poupe-me.

9 de Abril de 2009

O mesmo desejo desde

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 1994.

30 de Março de 2009

Ai, ai

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Acredito que a maior loucura é conseguir dissimular a própria intolerância: desvia os olhos, contrai o corpo e cala. Se essa dissimulação recebe o rótulo de amor, é ainda mais nauseante: “suportei tudo isso por você”. Mas: quem te pediu para suportar algo? Se havia amor e liberdade, por que mentir?

Ai, meu bem, patético.