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25 de Julho de 2010

Afasia

Postado em Rabugices por sophrosyne.hybris@gmail.com

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Para estudar, de modo adequado, qualquer ruptura nas comunicações, devemos, primeiro, compreender a natureza e a estrutura do modo particular de comunicação que cessou de funcionar.

Ela falava com as mãos. Se alguém, do outro lado da rua, a olhasse, concluiria que estávamos brigando. Mas não. Quando ela falava sobre alguma coisa de que gostava, era assim, teatral. Até um pouco dramática – apóia as duas mãos sobre a mesa, inclina o corpo e, com olhos marejados, fala sobre um trecho de um livro qualquer. Fico em silêncio. Ela toma o último gole de chá e cruza os braços.

Falar bem implica necessariamente a obtenção de uma resposta correta – resposta correta é aquela que corresponde à idéia que temos em mente e desejamos passar ao ouvinte.

Estou nervosa e, na tentativa frustrada de disfarçar, falo e falo e falo. Inicio um assunto e, antes de concluí-lo, me lembro de algo muito mais interessante e que, portanto, precisa ser dito imediatamente. Tudo é urgente, amor. Tenho ânsia de dividir com você, em uma hora de conversa, a minha vida inteira. Quero despertar alguma coisa em você. Comovê-lo. Mas não: você continua silente. Um robô? Se alguém, do outro lado da rua, nos olhasse, concluiria que você estava profundamente entediado.

“Você disse porco ou porto?”, perguntou o Gato. “Eu disse porco”, respondeu Alice.

Ela não entendia que, ao contrário dela, eu usava as palavras e o silêncio para ocultar pensamentos e sentimentos e não para dividi-los. E esse era um processo muito mais complexo do que simplesmente falar ou usar o silêncio para comunicar que estou profundamente magoado, como ela faz agora. Mas não posso culpá-la, já que… [ela me interrompe:

“Alguma certeza eu preciso ter, se não a de amar bem, ao menos a de não amar”, “Quê?”, “É um trecho de um poema do Dylan Thomas”, “Ah, sei”, “Bom, vou indo, foi bom te ver”, “É, foi sim, você parece… melhor”, “Sim, estou”, “Bem, até”, “Até”.

Pensei em acender um cigarro. Mas lembrei que não fumo. Nessas horas, gostaria. Ela se afasta, desajeitada, em direção ao carro. Procura a chave na bolsa. Não acha. Esqueceu a chave sobre a mesa do Café. Demora alguns segundos para se dar conta disso. Percebe. Caminha, ainda mais desajeitada, na minha direção. Tenho vontade rir. Mas não, ela não entenderia.

“Esqueci a minha chave”, “Ei, eu gostei do poema”, “Hã, ok, depois te mando o resto por e-mail”, “ok”.

Voltando para casa, me lembro de um trecho d’O Eclipse: “gostaria de não amá-la, ou de amá-la melhor”. Paro numa banca de jornal e compro um maço de cigarros.

30 de Junho de 2010

meu jardiM

Postado em Rabugices por sophrosyne.hybris@gmail.com

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Convém saber que um jardim planejado de maneira muito rigorosa, no estilo “parques à francesa”, composto de canteiros, e veredas, tudo disposto geometricamente, exige grande competência e cuidados. Contudo, jardins planejados não são capazes de surpreender. Não fosse por uma ou outra flor de cor diferente, seriam absolutamente iguais. Jardins planejados são não-lugares.

Esfrego os olhos pela manhã, na tentativa falha de arrancar os vestígios do paraíso que se construiu, noite após noite, nos meus sonhos. Tanta luz. E os sonhos, secreções amareladas entre cílios e pálpebras, desaparecem ao primeiro golpe impiedoso de água quente.

Já os jardins “do tipo inglês” são compostos por um tapete de grama, arbustos e flores misturadas – é impossível encontrar dois jardins exatamente iguais. Um balé de cores, cheiros e texturas. Paraíso de encantamentos infernais. Bosch. Jardim das delícias. O lugar mais lindo em que já estive.

Penso que, ainda que fosse possível fotografar um sonho, um terceiro seria incapaz de entender as sensações que, frágeis, se dissolvem em água e sabão pela manhã.

Quanta tristeza.

28 de Junho de 2010

Sobre ondas?

Postado em Rabugices por sophrosyne.hybris@gmail.com

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A definição de onda é qualquer perturbação que se propaga em um meio. Crista é a parte alta da onda e vale é a parte baixa.

E os meus sentimento parecem regidos por este movimento oscilatório. Na crista, as coisas mais complicadas, os problemas sem solução, o “nunca mais”, tudo parece fácil de resolver. Mas, segundos depois, no vale, enumero todos os problemas (reais e inventados); e qualquer gesto, mesmo um abraço, parece impossível.

Sabemos que dois objetos materiais não ocupam o mesmo lugar no espaço. Com as ondas isso é diferente: elas podem coexistir ao mesmo tempo e no mesmo local.

Interferência de ondas, pessoas e lugares. Cristas que se somam, pessoas onde sempre estive e lugares que nunca beijei.

 

26 de Junho de 2010

Grundlos

Postado em Diarices, Rabugices por sophrosyne.hybris@gmail.com

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Uma semana. Apenas uma semana e a sensação de que poderia ser qualquer outra pessoa ou coisa ou ainda pessoa-coisa no meu lugar. Sempre pôde. Não acredito que exista, para além das nuvens, algo que imponha uma ordem cósmica irrevogável. Ao contrário do que possa parecer, não sou fatalista. Tudo poderia ter acontecido de forma diferente – eu sei. Foi escolha minha. Não, não vamos falar de culpa, deste ranço de pensamento cristão que você insiste em sustentar em seus discursos. Aliás, culpa, destino, o que mais?

Tudo poderia ter acontecido de forma diferente.

Naquela tarde de junho, era eu que esta ali, querendo algum tipo de salvação para o tédio e o vazio; querendo distrair meus pensamentos (e o corpo) da única coisa que é certa e irrevogável para todos. Uma folha se desprende de uma árvore, passeia pelas ruas, amarela, se deixando levar pelo vento, até que: chão. Chão, claro. Mas não ainda.

Uns dias depois, deitada na cama e me sentindo ainda mais óbvia por ter, há dois anos, trilhado o mesmo caminho: numa manhã cinzenta de junho, entreguei a ele aquele livro de capa preta. Não vou dizer o nome do autor. Era um livro, basta. Escrevi umas coisas sobre pedras e areia e água na primeira página. Não lembro bem o quê. Era verdade. Naquele momento, era verdade: eu o amava, fiz promessas e imaginei o futuro. Mas promessas de amor não duram nem o tempo de se terminar uma frase… Eu te am… Não mais.

Naquela tarde de junho, escolhi o chão. E não, não imagino que a dor aqui relatada possa, de alguma maneira, emocionar um terceiro.

Uma semana é pouco. E é tudo.

21 de Junho de 2010

A Gravata, 1957

Postado em Rabugices por sophrosyne.hybris@gmail.com

Versão muda de um conto do escritor Thomas Mann sobre uma garota que vende cabeças. Com roteiro de Jean Cocteau, este curta era considerado perdido, mas teve uma de suas cópias recentemente descoberta na Alemanha. Para Jodorowsky, esta que foi sua primeira experiência cinematográfica mostra que “um artista deve ser como Cocteau, esquizofrênico, pois necessita ser muitas pessoas ao mesmo tempo, não apenas uma”.

14 de Fevereiro de 2010

Tokyo undressed

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http://tokyoundressed.blogspot.com/ (Dica do Leo)

14 de Janeiro de 2010

Agora sim:

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O leite, o sentimento, a bruta, esfera, o fim, o jeito, o medo, o beijo, o vero, o ero, o raro
O falo, o dado
O olho tosco, o rosto, sopro, gosto ruim
O dado, o olho tosco, o rosto, solto ruim

23 de Janeiro de 2009

All in the mind

Postado em Rabugices por sophrosyne.hybris@gmail.com

Tudo bem: o mundo me acha maluca. Agora passo a concordar: – Estou vendo coisas! Da janela do trabalho, vejo gente conhecida bebendo e se divertindo. Gente do passado. Enquanto isso, na last.fm, rola “I am over it”. A vida tá de brinks.

30 de Dezembro de 2008

Querido leitor

Postado em Rabugices por sophrosyne.hybris@gmail.com

Será que o IP 201.65.46.226 vai continuar me visitando DUAS vezes por dia em 2009?

(…) na primeira oportunidade, ele fará exatamente a mesma coisa que produziu a ruptura, até com mais ousadia, munido da consciência secreta da sua imprescindibilidade.

Beijonocorazón,

14 de Dezembro de 2008

Um porre:

Postado em Rabugices por sophrosyne.hybris@gmail.com

“Essa busca pela abstração é uma parada muito fascinante. Várias coisas”. 

Marcelo Camelo falando sobre – pordeus! – física em entrevista à revista Serafina.