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27 de Julho de 2010

I

Postado em Verborrágica por sophrosyne.hybris@gmail.com

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Ouroboros: uma serpente que morde a própria cabeça. É um símbolo associado ao Ewige Wiederkunft.

Deitado na cama, observando a sombra da janela projetada na parede do quarto. Embaixo dos lençóis, ainda sonolento, sou completamente inofensivo. 8h30. Adormeço. Meu braço, emaranhado de veias azuis, pende para fora da cama.

“Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes”, disse o demônio. Tive medo, um medo inexplicável, que cresceu no estômago e foi tomando cada parte do meu corpo com uma avidez suicida. Fui acordado pelo telefone. Romperam a bolha. “Sim, sim”, dizia roboticamente, sem saber direito quem estava do outro lado da linha. Será que acabo de dizer Sim para algum absurdo?

Do outro lado da linha, agora eu sabia, ela. Como sempre, exumava lembranças com a mesma precisão com que eu esquecera. Desta vez, estava dentro de uma loja de departamentos quando, surpreendentemente, aquela música tocou. “A música que tocou quando estávamos tomando café naquele restaurante à beira da estrada”, riu. “E então a garçonete derramou o meu café na sua blusa, aquela azul, lembra?”, riu de novo. Não eu não lembrava. Só disse um Sim robótico, querendo encurtar aquela conversa que, de tão estapafúrdia, parecia até ficção.

Ainda com o telefone na mão, como se estivesse falando, caminhei até o quarto. Pensava nas frases que usaria da próxima vez que ela ligasse: “não tenho capacidade física de suportar a quantidade de sentimentos e lembranças que você arrasta feito”… Feito o quê? Correntes? Bola de ferro? Merda. Por isso, não consigo terminar o diabo do livro. Não, não, só estou cansado. Melhor deitar.

Só conseguia pensar nos adjetivos que usara para defini-la quando se conheceram: magnética, eterna, hipnótica. Há quanto tempo: quatro meses ou quatro anos? Não importa, não era eu. E também não era ela. Certamente, não era essa mulher de voz rouca e fala alterada pelos antidepressivos.

Quantas vezes eu disse “eu te amo”? E quantas vezes ainda vou dizer acreditando que existe um quê de eternidade nesta frase? Mas o que sobra de um homem quando, de tudo o que ele é, de tudo o que ele acredita ser, se retira a crença em suas próprias palavras. Droga: 11h. Preciso mesmo é de um banho.

13 de Fevereiro de 2010

Todo carnaval tem seu fim

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Começou. Não havia como fugir do trânsito – tudo parado. Péssimo dia para voltar a dirigir. A praia de Copacabana está lotada. De longe, é possível perceber o movimento silencioso da cidade que, aos poucos, se torna caricatura de si mesma. De repente, prédios, ruas e bairros inteiros invadidos: é inevitável. Acabamos (nós, cariocas, milenarmente cansados de vestir a fantasia de carioca) perdidos em sorrisos de samba gasto e pileques de ilusão.

Depois de tantos anos repetindo que essa obrigação de estar alegre me oprime, resolvo apenas me calar. Não faço mais questão de ter razão. Ainda assim, o Rio debocha da minha falta de identificação com o espetáculo: um folião cai sobre o capô do meu carro. Permaneço imóvel por alguns segundos, até que: como operária que verifica a qualidade das peças produzidas em uma fábrica, pergunto se ele está bem. Está. Levanta e passa a existir em danças desajeitadas e beijos soprados aleatoriamente. Está realmente bem.

Estaciono o carro e caminho em direção ao meu prédio. Sinto dificuldade de respirar. De repente, prédios, ruas e bairros inteiros silenciam. Como pode existir o samba sem alguém para escutá-lo? Já não enxergava ou ouvia os blocos. Foi assim que, na Rua da Passagem, matei o carnaval.

12 de Janeiro de 2010

Viver

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Segundo a gramática, verbo é a palavra com a qual se afirma a existência de uma ação. Então, antes de tudo, é preciso escolher um verbo, o verbo. Este amontoado de letras que me fará vencer o calor e sair da cama; que me fará atravessar a linha imaginária entre a galeria e o quadro. Não fui eu que pintei. Não sou eu na tela, segurando cubisticamente, um ramo de flores. Também não escrevi nenhum dos livros que acumulam poeira na estante do quarto. E, claro, não compus a música que está tocando. O único verbo que me cabe é procrastinar.

Sócrates, antes de morrer, disse que devia um galo a Esculápio, Deus da medicina. Causando certa perplexidade, já que a frase costumava ser dita quando doentes alcançavam a cura. Talvez a doença de Sócrates fosse o próprio corpo.

Talvez. 

O sagrado, no sentido antropológico, é o que dá sentido a vida e significado a morte. E o que seria o sagrado de um filósofo senão a palavra? Estão (todos os que encontram o seu verbo, a sua palavra) vivos. Não há o que temer.

Talvez o meu verbo seja concluir.

31 de Dezembro de 2009

Em Salvador, vou dançar

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Disse um velho orixá pra oxalá
Pra acreditar
Pra não temer, temer, temer
Desses tempos verdadeiros
Tempos maus

(Janaína, Otto)

O céu derramava o seu chumbo por sobre o castigado mar do Flamengo. Na manhã do dia 31 de dezembro, debaixo de chuva, apenas alguns garis recolhiam folhas secas das areias da praia, enquanto meia dúzia de desavisados enfrentavam os raios para oferecer flores à Iemanjá. Em 2008, não viemos e veja só, veja só. Não acredito que Iemanjá tenha sentido falta das nossas rosas, mãe. É claro que sentiu, é claro, veja só, veja só. Do nosso lado, um casal contava as sete ondas: ela dava pulos desajeitados, segurando a saia; ele, ao perceber a nossa presença, ficou imóvel – criança que quebrou o vaso de porcelana da mãe. Do outro lado é o quê? Niterói? Não sei, mãe, creio que sim. E lá adiante? Acho que é a Urca. Não tenho certeza.

Embora estivéssemos ridiculamente vestidas, com aquelas capas de chuva de camelô, as nossas roupas ficaram ensopadas e, ao nos movimentarmos, fazíamos uns barulhos esquisitos, impossíveis de serem reproduzidos por qualquer onomatopéia. O celular da minha mãe tocou. Aqui fala da Beneficência Portuguesa, queremos informar que a senhora Rosa está internada com pneumonia. A senhora Rosa, minha avó, estava internada com pneumonia. Apenas olhei para minha mãe. Havia parado de dizer, parafraseando Fante (que eu detesto), que doismilenove tinha sido um ano ruim em julho.

Separação, tentativa de voltar, separação, novo-velho amor, separação, novo-novo amor, separação, separação, separação e separação. Trata-se sempre de caminhar para a despedida. Acho que, dos 20 anos até aqui, só acumulei experiências que foram me tornando mais e mais descrente e apática. Finjo que tento estabelecer relações, criar pontes, quando, na verdade, estou mais encastelada a cada dia. As pessoas vão e vêm e eu fico. De pé. Tanto faz. O mundo não se ressente por nada; eu não me ressinto por nada. Lembro que, aos 9 anos, assistindo ao Globo Repórter, fiquei chocada com um grupo de pessoas que morrera soterrado numa dessas chuvas de março. E agora, mãe? E agora? Agora, filha, nada. Agora a gente continua vivendo. Como se não soubéssemos disso? É.

Mas, 2010 esta aí, e estamos todos protegidos por Iemanjá, porque, veja bem, este ano eu coloquei as flores.

+++

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29 de Dezembro de 2009

Caos

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Não, não sei o que eu estava esperando dessa maluquice toda. Só sei que: não rolou. A impressão que tenho é de que são muitas variáveis – impossíveis de prever e controlar. Lembra um pouco aquele papo da Teoria do Caos, sabe? Na verdade, a Teoria não estuda a desordem, mas a possibilidade de enxergar algum padrão dentro da desordem. Mas é mesmo difícil identificar o tal padrão. Por isso, tanta confusão em acertar a previsão meteorológica, por exemplo.

Estava olhando para o céu esperando nuvens carregadas e aquele Rio de Janeiro cinza, monocromático, de que tanto gosto. Aqueles dias em que as pessoas correm pelas ruas, trombando uma nas outras, se espremendo entre as marquises e colorindo as faixas de pedestres com os seus guarda-chuvas. Queria a urgência do toque e aquele desejo de abismo. Mas não: dia de sol e as pessoas correndo e andando de bicicleta pela Lagoa, enchendo os bares com os seus chopes e conversas sobre futebol e mulheres. Aquele mormaço que nos empurra para a lentidão e apatia.

 

“Meu bem, tanto faz”.

14 de Dezembro de 2009

Do circo sem futuro

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, que eu decidi dizer que foi qualquer coisa nesse seu meio-sotaque – nem lá nem cá. Ou no jeito que você manipula o mundo a sorrir junto com você. Basta isso para que eu não cumpra nenhuma das minhas promessas de nunca-mais. Porque, né, o mundo está sorrindo e essa música é mesmo linda e o álcool e você dançando e você passando a mão no cabelo e você e você e você.

Paulinho da Viola canta: “não sei se o que trago no peito é ciúme, despeito, amizade ou horror”. Esqueço que não existe nada mais comum do que sofrer por um fim (antes do início) e acredito que Paulinho canta para mim. Paulinho canta para justificar todas as minhas idas e vindas, todo o meu oscilar entre amizade e horror.

Se eu colocar um nariz de palhaço, talvez o fato de estar apaixonada pareça mesmo engraçado.

1 de Setembro de 2009

Coisas

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Frio e levemente salgado, rodopiando, despenteando as árvores, indo e vindo e levando consigo as folhas amareladas. Foi este vento de mar que despenteou os meus cabelos? Estou, de fato, sentada na praia, assistindo aos moleques que batem uma bolinha, enquanto dou a primeira mordida no Dragão Chinês? O agora: sabor de chocolate e cheiro de maresia e todas as pessoas que não me percebem. O agora mais uma fina camada de agora: o trânsito e todo aquele barulho e os carros espremidos e as crianças de uniforme da escola atravessando fora da faixa de segurança. Não consigo desfazer a trama dos agoras: todos os momentos se sobrepõem. Não sei se o corte do lado esquerdo da boca está curado, com casca ou aberto. Não sei se neste momento estou te beijando. Não sei se já te beijei. Talvez seja tudo vento: passado, presente, corpo, identidade. Tudo se misturando na esquina da Ataulfo de Paiva.

Mais uma vez, faço o monólogo dos lugares; das sensações contidas naquilo que me cerca. Mas como eu disse no parágrafo anterior (e como disse aquele velho argentino): Todos estão em toda a parte, e tudo é tudo. Cada coisa é todas as coisas. O Sol é todas as estrelas, e cada estrela é todas as estrelas e o Sol. E, se tudo é tudo, falar das coisas, sentir através delas, é falar de mim. Talvez, meu bem, este seja o meu monólogo interior, o único possível.

23 de Agosto de 2009

Todos os fogos

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Um minuto não é um minuto. Uma palavra não é uma palavra. Uma boca não é uma boca. Esta espera não é o universo. Reviro a bolsa procurando o último cigarro. Nada. Do outro lado da praça, a banca de jornal. Seria útil comprar cigarros – pelo vício e pela timidez. Então, a boca trocaria as palavras pela fumaça e as mãos encontrariam alguma ocupação, mas: ele.

A França não fabrica mais cigarros de tabaco negro, aqueles do Sartre. É, a fábrica dos Gauloises fechou (ele olha para fora do café, como se procurasse alguém na multidão). Em 2005, acho. Agora são fabricados na Espanha (pede um isqueiro para o garçom).  […] Acho este pedaço do Rio de Janeiro tão bonito quanto caricato, esta coisa da cidade à francesa (sorri).

Um minuto não é um minuto. Uma palavra não é uma palavra. Uma boca não é uma boca. Esta espera é parte de um sistema de significação inconsciente. Não existe tempo, argumentação ou corpo,

mas:

ele.

26 de Maio de 2009

Dois.

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Saí do cinema meio tonta, procurando me apoiar nas paredes, mas e a bombinha, cadê? [A asma é uma doença inflamatória crônica das vias aéreas. Em indivíduos suscetíveis essa inflamação causa episódios recorrentes de tosse, chiado, aperto no peito e dificuldade para respirar.] Esqueci em casa ou acabou. Droga! A minha rotina é uma espécie de ante-sala da vida, onde nada acontece: passado e presente; sonho e realidade quase imiscíveis. Mas essa calmaria, esse nada, é uma espécie de contagem regressiva para um colapso, eu sei. De repente: escuro. Acordo com um rosto desconhecido muito próximo ao meu, demoro a decodificar a imagem: dois olhos vivos e negros, diferentes dos meus que não têm brilho, mais parecem uns ocelos, opacos e mortos; o nariz dele é pequeno, bonito e proporcional; os lábios estão rachados, quase sangrando – a matéria viva querendo escapar e pintar de vermelho e respirar. Ei, moça, tudo bem com você? Tudo, tudo bem. Foi só uma tontura. Mas você ficou desmaiada um tempo. Quanto tempo? Não sei. Mas muito? Não, não muito. Isso acontece sempre? Algumas vezes. Você não deveria andar sozinha por aí, ainda mais nessa época do ano. Carnaval. É, no carnaval as pessoas piram, sei lá. Vou tentar levantar. Oquei, se apóia em mim. Tá. Você consegue ir para casa? Consigo, mas o ônibus demora à beça, ainda mais nessa época do ano. É, carnaval. É, carnaval. Odeio. Eu também.

As coisas começaram acontecer e tantas e tão rápido que nem senti, como no cinema: vinte e quatro quadros por segundo, no entanto, é impossível ter noção dos fragmentos. É fluido. Seqüenciado. Sem quebras. Era a primeira vez que entrava na casa dele, mas o meu corpo interpretava aquele momento como um retorno – era íntima de todos os detalhes pequenos e, portanto, indivisíveis: as infiltrações, o porta retrato sem foto e o barulho do ventilador de teto. Déjà vu. Quantas vezes eu já estive aqui? Percebia fragmentos de mim e dele em grossas camadas de poeira sobre os móveis e nos cantos do apartamento: o inevitável é leve. E nós, Bruno, somos inevitáveis, como a chuva e a morte. Odeio pensar desse jeito: eterno retorno, Nietzsche, à merda. Preciso parar de procurar explicações lógicas para cada sensação, a vida não tem lógica. E, quando me perco em explicações, acabo por não viver completamente o presente. 

Então, os meus olhos se abriram mais uma vez e perceberam o que ainda não: livros, pequenos pedaços de caos e silêncio, pedaços dele, espalhados por todos os cantos do quarto, respirando baixinho e em várias línguas, pernas de capa azul, mãos de capa vermelha e pés de capa amarela. Espalhados. Milhares de palavras escapando das páginas e trepando nas paredes e formando frases e parágrafos únicos. Os meus parágrafos. O nosso livro. As paredes eram de um branco agressivo: enormes telas em branco pedindo por tintas. Pensei em comentar que eu poderia pintá-las, mas. No apartamento quatrocentos e dois tocava jazz o dia inteiro. Ele tinha discos! Muitos discos espalhados pela sala inteira. Quase não acreditei, quando vi que a vitrola funcionava. Sentei no chão e ri sozinha, feito criança. Feito os meninos da praça. Ele morava algumas ruas depois do cinema – duas ou três, não lembro, estava muito tonta para decorar o caminho. Era um prédio de seis andares. Antigo. E, por Deus, tinha banheira! Sempre quis ter uma banheira em casa. E poder ficar imersa na espuma, em silêncio, ouvindo apenas o barulho que vem de mim, de dentro, o coração bombeando sangue para o meu corpo inteiro, oxigenando, impedindo que eu apodreça – muitas vezes pedi baixinho para que ele parasse; para que a força que faz com que essa bomba funcione falhasse e então eu:.

19 de Maio de 2009

Coisificação

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Sinto o meu texto engessado; qualquer movimento, mesmo aquele quase imperceptível, pé ante pé, produz imensas rachaduras e as tais dores lancinantes. Dentro da casca branca, a palavra descansa mole. Parece morta, sem vontade, sem… utilidade?

Olhou pela janela e percebeu que o discurso da vida permanecia alheio a sua mudez: – a realidade não conhece os meus problemas. Não havia comida, água, ou luz; não havia possibilidade de se estabelecer qualquer diálogo: a palavra, outrora arma e caminho, havia se tornado um percalço a ser evitado.