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27 de Agosto de 2008

Rastros

Postado em Verborrágica. por takemypicture@uol.com.br

Metido naquele uniforme azul, entre pensamentos-pipa, o menino não faz idéia de que, um dia, não vai restar nada do imponente hotel em que ele trabalha para vencer o tempo.

23 de Agosto de 2008

Sobre o que nunca vai ser lido

Postado em Verborrágica. por takemypicture@uol.com.br

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Nos primeiros minutos, a minha boca se deixava invadir sem vacilar, resistir ou sofrer. Depois, sufocada, passei a inspecionar cada milímetro de sua superfície à procura de uma costura, remendo ou fio solto, mas: nada – tratava-se de um inteiro. Girava, torcia, escorria… e parava abismada. Não tinha fim.

O infinito não passava de um encontro entre todos aqueles azuis; e para além deles não havia nada. O que eu esperava encontrar afinal? Mesmo completamente imersa e me debatendo, ainda tentava assimilar tudo aquilo. Precisava de uma explicação lógica para estar ali.

Desde o início, eu sabia: aqueles olhos não eram de areia. Mas não acreditei que o mar… conseguisse,

em suas sístoles e diástoles,
destrancar tantas portas
e se fazer presente.

17 de Agosto de 2008

Gaveta

Postado em Verborrágica. por takemypicture@uol.com.br

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Um buraco imenso duas pedras cinco moleques atravessando a rua nenhum maço de cigarros quatro postes acesos uma infinidade de estrelas uma chamada em espera duas quadras cinco lances de escadas dois tacos soltos uma hora dois pratos dois copos quatro garfos nenhum beijo dois sapatos um vestido uma calça uma camiseta dois discos um comprimido nenhum sono.

Não estávamos sozinhos. As paredes do alojamento eram finas e permitiam que toda a sorte de barulho (e, portanto, de vida) invadisse o pequeno cômodo. Era compreensível que ele precisasse beber tanto para suportar aquilo. Em geral, as pessoas bebem para fugir da rotina; ele bebia para suportá-la.

No entanto, naquela noite, ele não parecia bêbado. Estranhei. De repente, começou a falar cadavezmaisrápido e embolar as plalavras: – Estamos sendo arrastados e vamos cair, vê? No entanto, sentia o meu corpo leve, como se pudesse voar pela janela e ganhar a rua; nela, os meus pés sentiriam o chão frio e, de novo, as pedras. Como algumas pessoas conseguiam passar por aquele caminho acidentado com tanta facilidade? Para ele, cada pedra usada para calçar aquelas ruas, aquelas mesmas ruas, era enorme.

A mistura de todas as cores era o negro afinal. E era apenas o negro que ele era capaz de enxergar – naquela situação e mesmo antes.

13 de Agosto de 2008

k7

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A gravação estava baixa – de fita para fita nunca fica bom, mas é melhor do que ouvir rádio. Jogou o jaleco no banco de trás do carro e, com a mão para fora da janela, deu adeus aos amigos. Nossos amigos. Não me lembro direito deles. Borrões. A verdade é que, para além do seu rosto, a minha memória não existe.

Mesmo no inverno, o sol persiste. Rio. Guardo o casaco dentro da bolsa e ligo o ipod. A música é a mesma daquelas velhas fitas; daqueles dias em que voltávamos juntos da faculdade.

Decido ir andando até o trabalho: músculos esticados e a música no ouvido. Dez anos depois, aquele refrão é como um reencontro com aquilo
que
ainda
insiste
em
restar

11 de Agosto de 2008

Ostra

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No fundo do mar, onde quase tudo é silêncio, um grão de areia pode ser um incômodo necessário.

2 de Agosto de 2008

Aqui

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No meio da noite, pesadelo expressionista: coração batendo forte e o diabo do casaco vermelho chamando a atenção de todos para mim – o meu maior medo é estar no centro; é caminhar para o centro.

A incapacidade de falar, pensar e respirar vem ao longo do dia. Sem ar. Quase afogada. A rotina é constituída desse líquido em que estou inserida; desse líquido que entra pelas narinas e me entorpece. É preciso se agarrar a alguma coisa: – Ao amor, ele disse. Mas eu não consigo amar uma única pessoa ou coisa; não tenho foco. Tudo o que sinto se pulveriza antes de se solidificar. É como chuva. Mar. Ou qualquer outra coisa de natureza parecida. Lágrimas talvez.

E, olhando para os lados, percebi que não estou só: estamos todos deslizando – plano inclinado. Sempre na mesma direção e sentido. Pernas, braços e cabeças que se misturam: monstro de gentilezas padronizadas. Descendentes. Decadentes. Patéticos.

3 de Julho de 2008

:

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Pelo pouco que pude ouvir da conversa, eles não são daqui; vieram de longe para conseguir ‘uma colocação’ e acabaram assim: pendurados em andaimes, reformando uma ‘casa velha’ – que, para mim, era uma ‘velha casa’. Parada do outro lado da rua, observava as paredes, antes bege, se tornado de um azul constrangedor. Mesmo aqui, onde o tempo costuma ir lento, as coisas e as pessoas se transformam – quanto de subjetividade carregava aquela nova cor! A fachada, pouco a pouco, se tornava o retrato do dono da casa: nariz, olhos, boca e, olhando mais de perto, poros e barba por fazer. Retrato icônico. Sinonímia perfeita. Pai.

2 de Julho de 2008

Noite

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Acordei. Na rua, as pessoas se aglomeravam por sobre as calçadas. Espalhadas. Mar de gente sem identidade. Do outro lado do corredor, a criança se esgoelava, enquanto a mãe estalava os sapatos escada abaixo; no meu quarto, o tapete molhado pela água que gotejava do teto – quando a casa resolve chorar a ausência de alguém… – e, portanto, o cheiro de mofo. Aquele cheiro de coisa velha, madeira apodrecida, poeira e húmus, aquele cheiro de gente velha internada em um asilo, aquele cheiro que não vinha do tapete; vinha de mim.

Esfregava, com violência, as costas, chuveiro aberto ao máximo, quente, o vapor se espalhando pelo banheiro, beijando os azulejos e voltando a ser água. Eterno retorno. No chão frio, me deixei invadir pelo passado, então: amarelo, amarelo e… branco pontuando a realidade – ou aquilo que eu atendia por. O cheiro de tinta, as roupas espalhadas pelo chão e toda a violência dos finais.

 

A beleza do passado é ser passado.

7 de Junho de 2008

Adivinhações

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O despertador tocando às 6 da manhã de sábado era tão inadequado quanto… eu e ele. Queria poder olhá-lo, nos olhos, mas o meu corpo inteiro rangia, como se fosse desmontar. E, então, o ridículo: um tropeço e o chão.

Uma mão estendida, um sorriso cúmplice, um olhar que reconhecia o trágico daquele momento. O tropeço que me deixou nua diante dele; que mostrou quais eram as minhas intenções e, ao mento tempo, transformou-as em cinzas.

De repente, escutei uns versos, parecia mesmo uma alucinação, o amor é uma espécie de seleção natural, o amor é uma espécie de seleção natural. Então eu, borboleta vermelha, não conseguiria me camuflar pousando num tronco de árvore. Estaria sempre exposta e, muitas vezes, no chão.

31 de Maio de 2008

Processo

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O que me surpreendia tanto? Os dedos atravessavam o campo minado sem vacilar, sem se equivocar, sem sofrer – sã e salva. Longe das complicações que o romantismo arrasta pelo braço. Girava, torcia, machucava… e: parava abismada diante das feridas. Que ironia! As idéias, em suas mãos, tomavam forma e até sangravam.

 

A tênue linha entre verdade e ficção.