Arquivo na categoria Verborrágica
2 de Abril de 2009
A afinidade das imagens de Hans Bellmer com as palavras de Georges Bataille está para além da estética surrealista: parecem ter nascido do mesmo processo catártico.
Cada linha de Bataille poderia ser traduzida, na íntegra, pelas imagens de Bellmer – foi a impressão que tive ao terminar A História do Olho. Fazendo uma pequena pesquisa, descobri que uma das edições do livro de Bataille saiu com ilustrações do Bellmer. Meu reino por esta edição.
As obras de Bellmer e Bataille não pretendem apenas dar vazão ao erotismo: as bonecas monstruosas de Bellmer foram criadas para se opor a harmonia do corpo humano celebrada pela retórica racista do nazismo; já Bataille pretendia difundir em sua obra a idéia de que a constante acumulação conduz a morte.

Hans Bellmer
“O tempo transcorrido desde que abandonamos o mundo real, constituído pelas pessoas vestidas, estava tão distante que parecia fora de nosso alcance. Essa alucinação pessoal se desenrolava agora com a mesma falta de limites que o pesadelo global da sociedade humana, por exemplo, com a terra, a atmosfera e o céu”.
Georges Bataille
19 de Março de 2009

Foto: Marina Patalano
A caneta afunda no papel produzindo sulcos cheios de tinta; produzindo palavras e frases e folhas inteiras; produzindo cartas natimortas. Dez páginas. Não quero mais vazar deste jeito:
O dedo afunda na carne produzindo calafrios cheios de ridículo; produzindo sons e imagens e lembranças inteiras; produzindo uma relação natimorta. Um mês. Não quero mais vazar deste jeito:
Sozinha,
Sozinha,
Sozinha,
Sozinha.
9 de Março de 2009
Deve ser por isso que os franceses chamam o período após o orgasmo de “pequena morte”, petite mort. É a sensação de contato com a essência, que é interpretado como vazio ou lucidez extrema. Não estamos preparados para isso. Claro, estamos acostumados com a existência e, portanto, não reconhecemos a essência.
Um pouco antes, ele segurou a minha mão e eu, encolhida, esperava o peso desastroso de um “eu te amo”. Mas não: “quero te dar prazer”. Achei bonito. E, antes disso, sincero. Nunca ninguém havia me dito nada parecido. Então, ficamos ali, trancados naquele momento, longe do martelar do tempo.
“Meu bem, faz quantos anos?”.
22 de Fevereiro de 2009

, como um aleijado que ainda sente o membro amputado coçar. Sem as pernas. Levanta da cama, ainda com sono, sem se dar conta de que não pode mais andar; de que a vida não vai ser mais a mesma.
Diante do novo, sente necessidade de repetir as mesmas frases de antes, certo de que elas ganharão novos sentidos – novas pernas. No ar: bengalas, bolas de sabão, folhas secas, aviões (?):
“Quero alguém que saiba do que estou falando”.
Ele não a amava (e, neste momento, não seria capaz de acrescentar ‘ainda’ a frase). Talvez nunca. Mas, de todo jeito, no silêncio entre uma frase e outra, algum sentimento crescia. Um sentimento bem diferente da repulsa, que.
Ela estava muito cansada – é mesmo uma força incrível que se precisa fazer para não secar; para que o hoje não se torne o prólogo do ontem. Tinha horror do silêncio. No silêncio, ela podia avaliar, até com certa frieza, que, mesmo depois daquela merda toda, não havia se tornado uma aleijada.
Lembrei-me de ti, quando beijara o teu rosto de homem, devagar, devagar beijara, e quando chegara o momento de beijar teus olhos – lembrei-me de que então eu havia sentido o sal na minha boca,
26 de Novembro de 2008

Pensar no mundo – em tudo aquilo que eu não conheço do mundo – faz com que as minhas mãos tremam. É melhor pensar que o (meu) mundo é apenas aquilo que conheço: essas ruas do Rio, sempre as mesmas, sempre magras e tristes. O meu mundo é a minha rotina e nela não há companhia constante – as pessoas me atravessam e, de repente, não mais.
Os sorrisos e os corpos vão lentos. Que calor! O chão da varanda está coberto de restos da noite anterior. Descalça, acabo pisando numa ponta de cigarro. Não sinto.
Blindagem,
muro,
sangue-lodo.
Em breve, não haverá quem me atravesse. Então, que seja só.
9 de Outubro de 2008

Terça-feira. 19h. Ponte parada. Olhei pela janela do ônibus e, cruzando a Baía, um pequeno barco. A luz, exausta, iluminava apenas a proa – visto de cima, parecia se misturar ao mar. Barco sem fim.
Abaixo do vão central, a noite engoliu o barco. E eu, encostada no banco, permitia que as lembranças daquela manhã segurassem as minhas mãos. Como poderia recomeçar sem horror? Como poderia viver?
O sono transportou-me
àquele reino onde não existe vida
e eu quedo inerte sem paixão.
10 de Setembro de 2008
Do lado de fora: o mundo e o desejo de desejo de desejo. Atrás das paredes de concreto do meu quarto: eu. Segura. Imersa nos ruídos do organismo; naqueles ruídos que me protegem do tempo que se impõe lá fora. Aqui não envelheço.
(…)
Então ele, com a faca na mão, se deu conta de que não poderia matar o que já estava, muito antes, morto.
27 de Agosto de 2008
Metido naquele uniforme azul, entre pensamentos-pipa, o menino não faz idéia de que, um dia, não vai restar nada do imponente hotel em que ele trabalha para vencer o tempo.
23 de Agosto de 2008

Nos primeiros minutos, a minha boca se deixava invadir sem vacilar, resistir ou sofrer. Depois, sufocada, passei a inspecionar cada milímetro de sua superfície à procura de uma costura, remendo ou fio solto, mas: nada – tratava-se de um inteiro. Girava, torcia, escorria… e parava abismada. Não tinha fim.
O infinito não passava de um encontro entre todos aqueles azuis; e para além deles não havia nada. O que eu esperava encontrar afinal? Mesmo completamente imersa e me debatendo, ainda tentava assimilar tudo aquilo. Precisava de uma explicação lógica para estar ali.
Desde o início, eu sabia: aqueles olhos não eram de areia. Mas não acreditei que o mar… conseguisse,
em suas sístoles e diástoles,
destrancar tantas portas
e se fazer presente.
17 de Agosto de 2008

Um buraco imenso duas pedras cinco moleques atravessando a rua nenhum maço de cigarros quatro postes acesos uma infinidade de estrelas uma chamada em espera duas quadras cinco lances de escadas dois tacos soltos uma hora dois pratos dois copos quatro garfos nenhum beijo dois sapatos um vestido uma calça uma camiseta dois discos um comprimido nenhum sono.
Não estávamos sozinhos. As paredes do alojamento eram finas e permitiam que toda a sorte de barulho (e, portanto, de vida) invadisse o pequeno cômodo. Era compreensível que ele precisasse beber tanto para suportar aquilo. Em geral, as pessoas bebem para fugir da rotina; ele bebia para suportá-la.
No entanto, naquela noite, ele não parecia bêbado. Estranhei. De repente, começou a falar cadavezmaisrápido e embolar as plalavras: – Estamos sendo arrastados e vamos cair, vê? No entanto, sentia o meu corpo leve, como se pudesse voar pela janela e ganhar a rua; nela, os meus pés sentiriam o chão frio e, de novo, as pedras. Como algumas pessoas conseguiam passar por aquele caminho acidentado com tanta facilidade? Para ele, cada pedra usada para calçar aquelas ruas, aquelas mesmas ruas, era enorme.
A mistura de todas as cores era o negro afinal. E era apenas o negro que ele era capaz de enxergar – naquela situação e mesmo antes.