Arquivo na categoria Verborrágica.
2 de Julho de 2008

Acordei. Na rua, as pessoas se aglomeravam por sobre as calçadas. Espalhadas. Mar de gente sem identidade. Do outro lado do corredor, a criança se esgoelava, enquanto a mãe estalava os sapatos escada abaixo; no meu quarto, o tapete molhado pela água que gotejava do teto – quando a casa resolve chorar a ausência de alguém… – e, portanto, o cheiro de mofo. Aquele cheiro de coisa velha, madeira apodrecida, poeira e húmus, aquele cheiro de gente velha internada em um asilo, aquele cheiro que não vinha do tapete; vinha de mim.
Esfregava, com violência, as costas, chuveiro aberto ao máximo, quente, o vapor se espalhando pelo banheiro, beijando os azulejos e voltando a ser água. Eterno retorno. No chão frio, me deixei invadir pelo passado, então: amarelo, amarelo e… branco pontuando a realidade – ou aquilo que eu atendia por. O cheiro de tinta, as roupas espalhadas pelo chão e toda a violência dos finais.
A beleza do passado é ser passado.
7 de Junho de 2008

O despertador tocando às 6 da manhã de sábado era tão inadequado quanto… eu e ele. Queria poder olhá-lo, nos olhos, mas o meu corpo inteiro rangia, como se fosse desmontar. E, então, o ridículo: um tropeço e o chão.
Uma mão estendida, um sorriso cúmplice, um olhar que reconhecia o trágico daquele momento. O tropeço que me deixou nua diante dele; que mostrou quais eram as minhas intenções e, ao mento tempo, transformou-as em cinzas.
De repente, escutei uns versos, parecia mesmo uma alucinação, o amor é uma espécie de seleção natural, o amor é uma espécie de seleção natural. Então eu, borboleta vermelha, não conseguiria me camuflar pousando num tronco de árvore. Estaria sempre exposta e, muitas vezes, no chão.
31 de Maio de 2008

O que me surpreendia tanto? Os dedos atravessavam o campo minado sem vacilar, sem se equivocar, sem sofrer – sã e salva. Longe das complicações que o romantismo arrasta pelo braço. Girava, torcia, machucava… e: parava abismada diante das feridas. Que ironia! As idéias, em suas mãos, tomavam forma e até sangravam.
A tênue linha entre verdade e ficção.
30 de Maio de 2008
Os meus olhos se encheram de lágrimas. Disfarcei. Voltei a beliscar um resto de doce e caminhei até o outro extremo da varanda.
– Não, tudo bem, pode continuar falando.
Decidiram demolir o prédio e limpar o terreno para, então, construírem o tal centro cultural – do outro lado da rua, a metáfora para aquela conversa; aquele início. Demolir, desconhecer, construir, reconhecer.
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Sem palavras, rapaz. Se o post fosse sobre portas, eu diria: pode entrar. E não é todo mundo que.
25 de Maio de 2008

Espirrei. Claro, tanto tempo sem abrir aquele livro, sódeussabe quantos fungos decidiram fazer daquelas páginas casa e comida, livro-útero. Fiquei olhando para fora do carro: céu negro, chuva caindo e um silêncio que, de repente, passou a nos incomodar – perdemos a intimidade afinal. Antes que ele pedisse para eu ler o tal poema, liguei o som. Mais uma vez ele insistiu para que tomássemos o comprimido, como se aquilo pudesse trazer de volta a nossa versão escandalosa e romântica, que saía por aí prometendo sangue no Centro do Rio. Fiquei com vontade de rir. Não, não por efeito do remédio, mas por lembrar de todas as vezes que eu disse “para sempre”. Que besteira.
19 de Maio de 2008

Ela, em lugar de pedir, como era o costume dos homens, deitava no meu colo com metade da cabeça pendendo para o nada – uma posição aparentemente desconfortável. Virava-se um pouco e: dormia. O seu sono era tão pesado quanto o fato de ser única entre nós.
Eu, sem sono, sem inspiração, escrevendo apenas em linguagem referencial, ignorava a vida, que lá fora, era também felicidade. A vida emoldurada pelas grandes janelas brancas: o sol, as árvores, as pessoas apressadas para o trabalho e tudo que se mostrava possível sem ele.
Ela, deitada no meu colo, roncando baixinho, fazia a vida parecer simples e doce como a sua própria existência. O sono se estendia até o fim da tarde, quando a campainha tocava, e a cachorrinha corria serelepe para recebê-lo.
Bem-vindo de volta.
18 de Maio de 2008
Segundo ela, todo mundo já havia percebido… Então, recomendou que eu fumasse mais… Treze, trinta, trezentos e trinta e três vezes ao dia… Trezentos e trinta três? Se fumasse tanto, o câncer viria antes da melhora do meu humor… Então, por favor, a receita azul… Dobre a dosagem… Sem escândalo… Em algumas semanas, tudo resolvido! Não preciso cultivar a tragédia da minha família – o ódio e a sua problemática… As mãos no teclado: oduio, ódip, pfio… As mão: temem-tremem… E o motivo é sempre o mesmo: incompetência – minha e dos outros.
10 de Maio de 2008

Daí por diante, sabia que passaria a vida inteira entrando e saindo de salas de aula e bibliotecas, sem, no entanto, adquirir mais nenhum conhecimento. Quando pensava nisso, parecia sufocar, mas controlava os sintomas com cigarros e cafeína.
No silêncio das tardes monótonas, a realidade era cada vez mais irreal, enquanto os sulcos se tornavam indisfarçáveis, reais – em alguns anos, o seu rosto estaria devastado. Envelhecer é sempre patético.
É preciso aceitar o tédio que está incrustado nas suas escolhas. Porém, é preciso também saber sair da própria vida, como quem sai para comprar cigarros, quando o tédio aperta com força a sua garganta. Mas, não, espera: a grande lição não está em saber sair da própria vida; está em saber voltar.
7 de Maio de 2008

A escola, o recreio, o parque e os seus rostos sorridentes estão no passado. A minha infância fragmentada em um álbum de fotos; representada pelo amarelo das bordas; aprisionada numa seqüência desfocada. A menina com o balão colorido, não me lembro dela; não me reconheço nela. Virou imagem acústica, signo sem significado.
Você, que está no meu passado, não deveria existir também. No entanto, na biblioteca, quando Umberto Eco é o meu travesseiro, as lembranças te colocam na cadeira ao lado. Ao acordar, o seu bom dia é bring me up.
O tempo se arrasta, até que o seu erro, engolido com um copo d’água, é bring me down. Então, você é rosto e nome; significante e significado.
30 de Abril de 2008

Uma mão no volante e a outra para fora do carro. Fumando. Não te falei, mas: o filtro agora é vermelho. A chuva cai em pingos grossos e, no rádio, Chet Baker é o amigo mais próximo. Jogo o cigarro na rua e fecho a janela.
Estou parada num trânsito paulista enquanto a vida segue, bêbada, do lado de fora do vidro: a mulher de guarda-chuva xadrez atravessa a rua em direção à Lagoa, o entregador da farmácia tenta, com a sua bicicleta, passar entre os carros e quase leva o meu retrovisor, o vendedor de biscoito Globo se cobre com um pedaço de plástico e… Sinal verde.
Do lado de dentro do vidro: a minha angústia. Não te falei, mas: angústia é uma espécie de pré-medo – para a angústia se tornar medo, é preciso que ela deixe de se apoiar apenas em suposições.
Na minha boca, a angústia vira medo: pronuncio, em três idiomas, aquela pergunta. E, em silêncio, aguardo a resposta, que nunca.
Quero calar completamente, como as ruas, as datas e a chuva.