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Texto do Domingos de Oliveira sobre o período em que cursou engenharia na UFRJ:
Entre os 20 e 25, na faculdade de engenharia. Grandes salas, corredores, tetos altos e janelas largas. Muita gente burra passeando, andando de um lado para o outro. Chamo de burrice o seguinte: a falta de humildade, de amor ao próximo e de uma noção clara da morte. Pessoas que não vêem o mistério que as cerca, o que é realmente de uma cegueira implacável. Porém a vida está em todos os lugares, até na ENE (Escola Nacional de Engenharia). No Largo de São Francisco, chamado assim por causa da igreja velha que tem lá, onde de vez em quando eu entrava (naquele tempo eu era jovem e me incomodava o fato de Deus não existir).
Dos meus cinco anos na faculdade, lembro muito pouco. A falta de transcendência daquela gente. Sua objetividade doentia. Seu espírito de competição constante, essas coisas me davam angústia, me tiravam o ar.
Poderia dizer o mesmo sobre o curso de Física e, não por acaso, me sinto mais realizada em Comunicação Social – e não, não estou ignorando os problemas do curso, das pessoas e os meus. Só me sinto mais feliz – isso é pouco, mas é tudo.
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Convém saber que um jardim planejado de maneira muito rigorosa, no estilo “parques à francesa”, composto de canteiros, e veredas, tudo disposto geometricamente, exige grande competência e cuidados. Contudo, jardins planejados não são capazes de surpreender. Não fosse por uma ou outra flor de cor diferente, seriam absolutamente iguais. Jardins planejados são não-lugares.
Esfrego os olhos pela manhã, na tentativa falha de arrancar os vestígios do paraíso que se construiu, noite após noite, nos meus sonhos. Tanta luz. E os sonhos, secreções amareladas entre cílios e pálpebras, desaparecem ao primeiro golpe impiedoso de água quente.
Já os jardins “do tipo inglês” são compostos por um tapete de grama, arbustos e flores misturadas – é impossível encontrar dois jardins exatamente iguais. Um balé de cores, cheiros e texturas. Paraíso de encantamentos infernais. Bosch. Jardim das delícias. O lugar mais lindo em que já estive.
Penso que, ainda que fosse possível fotografar um sonho, um terceiro seria incapaz de entender as sensações que, frágeis, se dissolvem em água e sabão pela manhã.
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A definição de onda é qualquer perturbação que se propaga em um meio. Crista é a parte alta da onda e vale é a parte baixa.
E os meus sentimento parecem regidos por este movimento oscilatório. Na crista, as coisas mais complicadas, os problemas sem solução, o “nunca mais”, tudo parece fácil de resolver. Mas, segundos depois, no vale, enumero todos os problemas (reais e inventados); e qualquer gesto, mesmo um abraço, parece impossível.
Sabemos que dois objetos materiais não ocupam o mesmo lugar no espaço. Com as ondas isso é diferente: elas podem coexistir ao mesmo tempo e no mesmo local.
Interferência de ondas, pessoas e lugares. Cristas que se somam, pessoas onde sempre estive e lugares que nunca beijei.
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Se for para me machucar, que seja por conta própria. Não tenho queda para vítima. Mas tenho a impressão de que as pessoas gostam de se deixar golpear pelos outros. Talvez pensando que a dor de quem se vê obrigado a apunhalar seja maior.
Uma semana. Apenas uma semana e a sensação de que poderia ser qualquer outra pessoa ou coisa ou ainda pessoa-coisa no meu lugar. Sempre pôde. Não acredito que exista, para além das nuvens, algo que imponha uma ordem cósmica irrevogável. Ao contrário do que possa parecer, não sou fatalista. Tudo poderia ter acontecido de forma diferente – eu sei. Foi escolha minha. Não, não vamos falar de culpa, deste ranço de pensamento cristão que você insiste em sustentar em seus discursos. Aliás, culpa, destino, o que mais?
Tudo poderia ter acontecido de forma diferente.
Naquela tarde de junho, era eu que esta ali, querendo algum tipo de salvação para o tédio e o vazio; querendo distrair meus pensamentos (e o corpo) da única coisa que é certa e irrevogável para todos. Uma folha se desprende de uma árvore, passeia pelas ruas, amarela, se deixando levar pelo vento, até que: chão. Chão, claro. Mas não ainda.
Uns dias depois, deitada na cama e me sentindo ainda mais óbvia por ter, há dois anos, trilhado o mesmo caminho: numa manhã cinzenta de junho, entreguei a ele aquele livro de capa preta. Não vou dizer o nome do autor. Era um livro, basta. Escrevi umas coisas sobre pedras e areia e água na primeira página. Não lembro bem o quê. Era verdade. Naquele momento, era verdade: eu o amava, fiz promessas e imaginei o futuro. Mas promessas de amor não duram nem o tempo de se terminar uma frase… Eu te am… Não mais.
Naquela tarde de junho, escolhi o chão. E não, não imagino que a dor aqui relatada possa, de alguma maneira, emocionar um terceiro.
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Versão muda de um conto do escritor Thomas Mann sobre uma garota que vende cabeças. Com roteiro de Jean Cocteau, este curta era considerado perdido, mas teve uma de suas cópias recentemente descoberta na Alemanha. Para Jodorowsky, esta que foi sua primeira experiência cinematográfica mostra que “um artista deve ser como Cocteau, esquizofrênico, pois necessita ser muitas pessoas ao mesmo tempo, não apenas uma”.
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“Um mundo que começasse por Picasso em vez de acabar nele seria um mundo exclusivamente para cronópios, e em todas as esquinas os cronópios dançariam tregua e dançariam catala, e Louis sopraria durante horas em cima do poste luz fazendo cair do céu enormes pedaços de estrelas de calda e framboesa para crianças e os cachorros comerem”.
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No dia em que me pediu em casamento, ele disse: “Quero ficar com o teu cheiro no meu corpo. (…) Já te falei que antes de te conhecer eu tinha horror de boceta?”
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And everybody knows that it’s now or never
Everybody knows that it’s me or you
And everybody knows that you live forever
Ah when you’ve done a line or two