2 de Agosto de 2008

No meio da noite, pesadelo expressionista: coração batendo forte e o diabo do casaco vermelho chamando a atenção de todos para mim – o meu maior medo é estar no centro; é caminhar para o centro.
A incapacidade de falar, pensar e respirar vem ao longo do dia. Sem ar. Quase afogada. A rotina é constituída desse líquido em que estou inserida; desse líquido que entra pelas narinas e me entorpece. É preciso se agarrar a alguma coisa: – Ao amor, ele disse. Mas eu não consigo amar uma única pessoa ou coisa; não tenho foco. Tudo o que sinto se pulveriza antes de se solidificar. É como chuva. Mar. Ou qualquer outra coisa de natureza parecida. Lágrimas talvez.
E, olhando para os lados, percebi que não estou só: estamos todos deslizando – plano inclinado. Sempre na mesma direção e sentido. Pernas, braços e cabeças que se misturam: monstro de gentilezas padronizadas. Descendentes. Decadentes. Patéticos.
26 de Julho de 2008
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não pode reger a minha vida.
24 de Julho de 2008
All this talk of getting old
It’s getting me down my love
Like a cat in a bag, waiting to drown
This time I’m comin’ down
4 de Julho de 2008
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Edição 27 do Suicidas aqui.
4 de Julho de 2008
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“O nosso Vitangelo Moscarda (cuja sina começa pelo nome que não lhe coube, como a ninguém cabe, escolher) se apercebe de que toda a sua vida passada não quis ou não pôde opor às imagens de si, construídas pelos outros, uma auto-imagem consistente. Se, para os outros existiam tantos e tantos Moscardas, cem mil aspectos e perfis da sua persona aparente, para ele próprio parecia não haver um único eu que pudesse subsistir e resistir fora da opinião alheia. Para si próprio ele, afinal, era ninguém”.
Apresentação de Alfredo Bosi para Um, nenhum e cem mil, de Pirandello.
3 de Julho de 2008
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– Mas você é tipo o David Bowie da literatura.
3 de Julho de 2008

Pelo pouco que pude ouvir da conversa, eles não são daqui; vieram de longe para conseguir ‘uma colocação’ e acabaram assim: pendurados em andaimes, reformando uma ‘casa velha’ – que, para mim, era uma ‘velha casa’. Parada do outro lado da rua, observava as paredes, antes bege, se tornado de um azul constrangedor. Mesmo aqui, onde o tempo costuma ir lento, as coisas e as pessoas se transformam – quanto de subjetividade carregava aquela nova cor! A fachada, pouco a pouco, se tornava o retrato do dono da casa: nariz, olhos, boca e, olhando mais de perto, poros e barba por fazer. Retrato icônico. Sinonímia perfeita. Pai.
2 de Julho de 2008

Acordei. Na rua, as pessoas se aglomeravam por sobre as calçadas. Espalhadas. Mar de gente sem identidade. Do outro lado do corredor, a criança se esgoelava, enquanto a mãe estalava os sapatos escada abaixo; no meu quarto, o tapete molhado pela água que gotejava do teto – quando a casa resolve chorar a ausência de alguém… – e, portanto, o cheiro de mofo. Aquele cheiro de coisa velha, madeira apodrecida, poeira e húmus, aquele cheiro de gente velha internada em um asilo, aquele cheiro que não vinha do tapete; vinha de mim.
Esfregava, com violência, as costas, chuveiro aberto ao máximo, quente, o vapor se espalhando pelo banheiro, beijando os azulejos e voltando a ser água. Eterno retorno. No chão frio, me deixei invadir pelo passado, então: amarelo, amarelo e… branco pontuando a realidade – ou aquilo que eu atendia por. O cheiro de tinta, as roupas espalhadas pelo chão e toda a violência dos finais.
A beleza do passado é ser passado.
29 de Junho de 2008
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Os coleguinhas do Rockz fizeram uma música que é minha cara, escutem aqui.